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Quando comecei a assistir Downton Abbey, perdi parte da vida. O vício que injetam as produções de altíssima qualidade que têm surgido nesse formato de entretenimento é cruel. E aí eu comentei com o namorado, com os melhores amigos, com os colegas, com o tio da banca. E ninguém me deu muita moral. Com a segunda temporada, eu já estava chocada por não ter nenhum meme sobre aquilo na minha timeline, nenhum bordão da Violet Crawley postado, nenhum link pro 9gag ou Buzzfeed, nenhuma demonstração do arrebatamento que eu vinha sentindo. Descobri, porém, o vício em outro amigo. E depois em outra amiga. E depois em outras duas. E descobri, também, sobre o sucesso rasgado da série – entrando agora em sua 4ª temporada – em 45 países.

Esse meu texto é o último apelo: agora que Breaking Bad tá nas últimas, for christ sake, assistam Downton Abbey.

A proposta da série de época britânica de maior sucesso desde 1945, vencedora de dois Globos de Ouro e indicada mais de 40 vezes ao Emmy – tendo levado nove categorias – é deixar o protagonismo da produção a cargo da criadagem de uma família aristocrata dos anos 20, que vive em uma pomposa residência no interior da Inglaterra. A meu ver, contudo, o novelão faz diferente. E faz melhor.

O fio que conduz e se encarrega do triunfo de Downton Abbey, não consigo deixar de acreditar, é a força de seus personagens femininos.

Em uma obra que inicia se passando em 1912, percorrendo o pré, durante e pós 1ª Guerra Mundial, Julian Fellowes constrói mulheres que pretendem fugir às heranças do período vitoriano. Mulheres que querem se livrar do efeito pesado e determinante do conservadorismo, que dita uma família onde tudo recebe apenas continuidade, como sempre foi, evitando, ao máximo, a mudança.

Uma condessa norte-americana de postura passiva, mas que, por ser mãe, desempenha um papel ainda mais importante no funcionamento da casa do que o próprio conde, que só segue o rumo da história da forma como a monarquia o dita. Uma filha que é infeliz por ter como função, além do belo sorriso nas reuniões sociais, um casamento que garanta a sucessão da riqueza. Outra que quer assistir a comícios políticos e, neles, gritar pelo direito ao voto. E uma última, que vive sob as paredes cruéis da ausência da beleza e se dá ao direito de escrever a um jornal e usar o penteado moderno das mulheres estadunidenses, sem temer a vulgaridade a elas atribuída pelos ingleses.

Na criadagem, o vilão que assim precisa ser pra atingir seu objetivo, mas não sabe como, e apela à ajuda da criada pessoal da condessa. Um mordomo que, por sua rigidez e lealdade extremas, vez por outra não consegue sequer repreender um empregado, e acaba buscando a serenidade da governanta da casa, mais calma, equilibrada e não menos leal e ética em suas funções. A criada que quer deixar de servir e trabalhar como secretária, e encontra nisso impedimentos, julgamentos e barreiras.

O mundo em que os Crawley vivem vai se tornando muito diferente daquele no qual eles nasceram, e por mais que você ache isso natural, com certeza não o era na Inglaterra conservadora dessas tantas décadas atrás. Pelo contrário: por lá, o novo choca, assusta, cria obstáculos, incomoda. Soa desrespeitoso, vulgar e ineficiente. Mas, pra elas, isso é mais fácil de ser percebido. Muito em conta da condição inferior em que são postas nessa realidade.

Com a complexidade dos personagens sendo explorada mais do que a aparência estética da obra (que, em uma fotografia deslumbrante, fascina o espectador), a série foge ao que poderia ser retratado como maniqueísta e assume o trabalho de humanizar as figuras daquele tempo, em nos mostrar o que viam os ingleses enquanto os norte-americanos dançavam seu jazz em foxtrot.

Presos à elegância, descrição e frieza do cinza das vestimentas, os protagonistas da transição da Belle Époque para a 1ª Guerra precisam enfrentar mais do que o drama de seus heróis de batalha. Precisam lidar com a chegada da tecnologia, da eletricidade, da medicina e sua roupagem modernizada. E o fazem a penosas custas, tendo que conviver com a necessidade da honra e da lealdade que têm por atribuição mascarar suas humanas – e tão inaceitáveis – falhas morais.

downtown abbey (3)

Downton Abbey paga seu custo de 1 milhão de libras por episódio (a contar a locação do Highclere Castle, em Hampshire, usado nas filmagens exteriores da série e na maior parte das interiores), ao entregar ao público um programa que tinha tudo pra ser um novelão quadrado, mas que se fez original, sarcástico e de cunho histórico.

Violet Crawley

Sempre achei Maggie Smith sensacional, mas como a condessa Violet Crawley, essa mulher se tornou pra mim um monstro da dramaturgia. Não são apenas os bordões escritos a ela com maestria, mas a condução fria que ela consegue fazer de uma personagem que tinha tudo pra ser detestada pelo público, mas se torna a mais apaixonante do elenco.

É em grande parte responsabilidade de Lady Violet – que tem asco a forma de vida dos norte-americanos –, que a série consiga abordar temas batidos, como o preconceito, a diferença entre classes e a supervalorização das aparências sem se tornar cansativa e clichê. E eu poderia divagar por horas a respeito dela, mas você já é um herói por ter chegado até aqui.

Agora, enquanto baixa seu primeiro EP, fique com a sagacidade das sentenças de Lady Violet Crawley ;).

Cora: podemos enviá-la para conhecer Nova York.

Lady Violet: Nós não estamos tão desesperadas assim.

___

Lady Violet: No que estou sentada?

Matthew: cadeira giratória. Inventada por Thomas Jefferson.

Lady Violet: Por que todo dia envolve uma briga com um americano?

__

Sra. Crawley: Vou tomar isso como um elogio.

Lady Violet: Oh, então eu devo ter dito da forma errada.

__

“Eu sou uma mulher, Mary. Eu posso ser tão contraditória quanto quiser.”

“Não seja derrotista, querida. É muito classe média.”

[sobre o telefone]: “Isto é um instrumento de comunicação ou de tortura?”

downtown abbey (1)

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