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O que você sabe sobre Guantánamo, a prisão de segurança máxima situada em uma base naval norte-americana em Cuba e que abriga, segundo os EUA, os terroristas mais perigosos do mundo? Provavelmente só o que o próprio governo norte-americano divulga.

Porém, um outro olhar sobre Guantánamo foi lançado em livro, no início desse ano. Trata-se de “Diário de Guantánamo” (ainda sem edição em português), escrito por Mohamedou Ould Slahi, preso desde 2002 no local.

O livro foi lançado após sete anos de uma exaustiva batalha judicial. O manuscrito de Slahi, com 466 páginas, foi considerado pelo governo dos EUA como um documento secreto e passou por uma edição rígida antes de ser publicado.

Mohamedou Ould Slahi
Mohamedou Ould Slahi

Em “Diário de Guantánamo”, Slahi relata em primeira pessoa métodos de tortura, banhos de gelo, interrogatórios e diversos tipos de humilhação que os presos sofrem na prisão.

O autor, natural da Mauritânia, jamais foi formalmente denunciado por crimes. Entregou-se voluntariamente três semanas após o atentado do World Trade Center e depois de meses de interrogatórios foi transferido para Guantánamo, de onde ainda não saiu, mesmo tendo sua liberação ordenada por um tribunal federal em 2010.

“Diário de Guantánamo” tornou-se o primeiro livro publicado por um detento da prisão militar e já é um sucesso de vendas nos Estados Unidos, fator que fez com que o seu pedido de liberdade voltasse a ser analisado pelo governo, segundo o Pentágono.

Leia um trecho abaixo. Os pontos de interrogação correspondem a nomes censurados pelo governo norte-americano.

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DIário de Guantánamo

Presos não têm permissão de falar uns com os outros, mas nós curtíamos olhar um para o outro. A punição por falar era pendurar o detento pelas mãos com seus pés quase encostando no chão. Eu vi um afegão passar mal algumas vezes enquanto era pendurado pelas mãos. Os médicos o “consertaram” e o penduraram de volta. Outros detentos eram mais sortudos. Eles eram pendurados por um certo tempo e depois soltos. Alguns detentos tentavam falar enquanto pendurados, o que fazia com que os guardas dobrassem sua punição.

Nós éramos colocados em cerca de seis ou sete grandes celas de arame farpado, com nomes retirados das operações feitas contra os Estados Unidos: “Nairóbi”, “USS. Cole”, “Dar es Salaam”, etc. Em cada cela tinha um detento chamado “Inglês” que de forma benevolente servia como intérprete e tradutor de ordens aos seus codetentos. Nosso Inglês era um cavalheiro do Sudão chamado [ ?]. O inglês dele era muito básico, então ele me perguntou secretamente se eu falava inglês. Respondi que não. Mas na verdade eu era um Shakespeare comparado a ele.

A maioria dos guardas é alto e com sobrepeso. Alguns são mais amigáveis e outros muito hostis. Quando me dava conta de que um guarda era assim, eu fingia que não falava inglês. Eu lembro um caubói vindo a mim de cara feia.

— Você fala inglês?

— Inglês não.

— Nós não queremos que você fale inglês, queremos que morra devagar.

— Inglês não — eu seguia repetindo.

Não queria dar a ele a satisfação de que sua mensagem chegara. Pessoas com ódio sempre têm algo para dizer, mas eu não queria drenar aquilo.

Eu vivia os dias em horror. Quando [?] passava por nossa cela, eu disfarçava o olhar, para que ele não me visse, exatamente como uma ostra. Eu o vi torturando esse outro detento. Era um adolescente afegão, de 16 ou 17 anos. [?] fez ele ficar de pé por três dias, sem dormir. Me senti péssimo por ele. Quando ele caia, os guardas gritavam “sem sono para terroristas” e o colocavam em pé novamente. Lembro de dormir e acordar e ele em pé como uma árvore.

‘Ele literalmente estava me executando’

O homem responsável pelo show começou a jogar cadeiras para o alto e a me bater com sua testa, e me descreveu com todos os tipos de adjetivos que eu não mereço, sem razão alguma. Ele perguntou sobre coisas das quais eu não tinha ideia e nomes que eu nunca ouvi.

Quando ele não conseguiu me impressionar com sua conversa, suas humilhações e a ameaça de prender minha família, ele começou a me machucar mais. Ele trouxe água gelada e encharcou todo o meu corpo. Eu tremia como um paciente com Parkinson. Tecnicamente eu não conseguia mais falar. O cara era estúpido, literalmente estava me executando, mas de uma maneira vagarosa.

Ele estava com muita raiva, quando [?] o parou porque temia os documentos que teriam de ser produzidos caso eu morresse. Ele descobriu outra técnica: trouxe um aparelho de CD com caixa de som e começou a tocar rap. Eu não me importava com a música porque ela me fazia esquecer a dor. Tudo que eu entendia era que a música era sobre amor. Amor! Tudo que eu havia experimentado ultimamente eram o ódio e suas consequências.

— Oh Alá, me ajude. Oh, Alá, tenha pena de mim — continuava [?], zombando das minhas orações. — Não há nenhum Alá! Ele te abandonou!

[?] me entregou a [?] e deu ordem aos guardas para que me levassem a um quarto especialmente preparado. Era muito frio e cheio de fotos mostrando as glórias dos EUA: armas, caças, fotos de George Bush. Pela noite toda eu tive que ouvir o hino americano.

— Não reze, você insulta meu país se reza durante meu hino nacional. Nós somos o maior país no mundo livre e temos o presidente mais inteligente — disse [?].

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  • Hmm! Interessante! O que será que esse inocente fez para parar nessa prisão? Por que ele apareceu como suspeito na lista do governo americano? E sobretudo por que isto tem mais importância do que os massacres do Estado islâmico que ninguém condena com a mesma veemência?