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Eu sempre pensei que a melhor coisa do mundo é ter coragem. Mas não é tão fácil adquirir essa qualidade. Depois de alguns tropeços, talvez, a vida te ensina a verbalizar o que teu coração grita em silêncio. Depois de algumas cabeças abaixadas, algumas lágrimas derramadas, alguns textos escritos e poemas jogados no lixo em papel amassado, você consegue se conformar que as coisas realmente não vão muito bem. Sempre achei que a melhor coisa do mundo fosse ter a coragem de dizer: eu cansei.

“Eu desisto. Sinto te falar, mas eu desisto de tentar. Nadar contra a corrente nunca foi da minha alçada, jogar a toalha me parece mais cômodo. Mais corajoso.” E é. Mas não dá. Desistir nunca foi fácil nem em pronúncia. Admitir que não aguentou até o fim, ou que parou no meio do caminho, também dá não pra carregar no coração. Havia pedras. E elas sempre existirão. No meio do caminho havia uma pedra (enorme). E depois apareceram outras menores e logo foram variando em seus tamanhos. Não há caminho sem pedras, Drummond.

“Eu cansei. Ir contra os meus princípios já é demais. Esgotar a minha paciência é o estopim. Não dá pra ser feliz de vez em quando.” Também não dá pra ser feliz incessantemente, moça (o). Não ache que o arco-íris vai aparecer na tua janela e que o pote de ouro estará bem perto dali. Ele não estará e é por isso que não dá pra cansar agora. Segura um pouco essas palavras, ouve mais teu coração. Engole o choro. Engoliu? Agora dá um sorriso e tenta mais uma vez. Mas se tiver coragem, se tua bravura for maior que a tua emoção, não pensa duas vezes: se já tentou muito, cansa-te. E não se incomoda em gritar isso pro mundo.

Coragem sempre foi uma qualidade que muito admirei. Até invejo quem tem o poder nas palavras de cansar sem preocupação, de desistir sem calcular quantas lágrimas ainda vai derramar por essa atitude que hoje parece impensável, mas amanhã não há dúvidas de que fizestes a coisa certa. Coragem não só de assumir pra si mesmo que o barco está virando e que a correnteza está cada vez mais forte. Você não vai aguentar. Mas coragem, principalmente, de assumir pro outro que o barco virou e os engoliu.

Se contarmos durante toda a nossa vida o quanto já tentamos e o quanto já desistimos, provavelmente, os planos inacabados, os relacionamentos pela metade e os sonhos não realizados são os mais numerosos da tua lista. É simples. Desistir é simples. Mas assumir que desistiu, que cansou de tentar, que está difícil doar-se demais, é barra. É dos maiores desafios da vida pronunciar essas duas palavras tão curtas: eu cansei. Apenas pensar sobre elas já é desesperador, porque a carga de fraqueza que vem somada a pronúncia das três sílabas é de doer a alma.

É como um grito de ódio que precisa escapulir da tua garganta. É como prender um choro, mas uma hora deixá-lo cair. É como ter o que falar e não ter voz pra pronunciar. É como querer ir, mas não ter forças para levantar. Dizer que cansou é exaustivo. Mas é também alívio. É retirar as algemas de uma situação que você não precisa passar, ou pelo menos não deseja nada disso nesse momento. Se tu, que está lendo, cansastes do texto, para. Mas se cansastes da tua vida, continua. Trilha o caminho que ainda não tentastes. E segue. Se der vontade de desistir novamente e se já houver tentado o máximo que consegues, não para. Segues novamente outro caminho. E dessa forma o teu cansaço vai se revigorando. O teu amor vai se tornando suportável. E não vai ser fácil. Tentar não é fácil. Mas pode ser libertador cansar um pouco. E assumir: eu cansei.

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