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O dia 8 de dezembro ficará marcado para sempre, pois foi nesta data, na qual homens e mulheres comuns preparam-se para as festividades de encerramento do ano, no ano de 1980, que John Lennon foi assassinado por um fã. O fato segue sendo notícia, pessoas no mundo inteiro prestaram homenagem a Lennon nesta semana. O caso é doentio, e muito conhecido. Lennon ter concedido um autógrafo a Mark Chapman algumas horas antes de levar um tiro dele, é um detalhe que incrementa a insanidade da ocasião.

De 8 de dezembro de 1980 até os nossos dias milhares de teorias já foram criadas para explicar o ato de Chapman, mas será que essa explicação é possível?

John Lennon Mark Chapman
John Lennon concedendo autógrafo a Mark Chapman

O que levaria alguém, que admira o trabalho de um artista, que acompanha sua trajetória, que compartilha de sua arte, a fazer o mal a este mesmo artista? Paul McCartney, em entrevista recente afirmou que Chapman é o “idiota dos idiotas”, e disse também que o crime foi mais cruel porque foi aleatório, imotivado, um ato idiota. Mas será que é assim tão simples?

John não foi o primeiro. Frank Zappa, um dos músicos mais inventivos se do século XX, sofreu um atentado em pleno palco, durante um show, em 1971. Enquanto executava mais uma de suas apresentações viscerais Zappa foi empurrado, por um fã, dentro do fosso do palco, cujo fundo era de concreto e ficava alguns metros abaixo do nível do palco. Zappa quebrou vários ossos, teve uma séria contusão na cabeça e espremeu a laringe (fazendo com que seu tom descesse uma terça). Pelo resto da vida sofreu consequências deste atentado, como uma dor nas costas que não o abandonava. O criminoso era Trevor Howell, fã de Zappa!

Frank Zappa 1971
Banda resgata Zappa do fosso

Também outro Beatle, George Harrison, em 1999, sofreu um atentado violentíssimo! Michael Abram invadiu a casa de Harrison aplicando-lhe 10 facadas no peito, enquanto George e sua esposa, Olivia, lutavam contra o lunático. Posteriormente Abram justificou seus atos dizendo que esteve possuído pelo espírito do próprio Harrison, e que Deus havia lhe dito para matá-lo. Este foi preso em um sanatório para pessoas com distúrbios psicológicos.

Há outros inúmeros casos de fãs que tentaram assassinar (alguns obtiveram sucesso como Chapman) seus ídolos. Atrizes,  atores, celebridades da televisão, músicos, basta que consiga mobilizar seguidores e admiradores,  que a pessoa está suscetível a algo do gênero. Pessoas tão diferentes como Lennon e Xuxa,  ou Sandy e Harrison, tem em comum esta perseguição. Mas por que estas pessoas fazem isso?

George Harrison esfaqueado manchete

A psicologia busca uma explicação. Um estudioso forense do século XIX, Richard von Krafft-Ebing, escreveu um artigo sobre mulheres tomadas por impulsos obsessivos, que viajavam centenas de quilômetros atrás de atores que idolatravam. A erotomania é um distúrbio psíquico reconhecido desde a década de 80 do século XX, e consiste na crença, absolutamente irreal, de que alguém (geralmente um artista famoso) relaciona-se secretamente com o erotomaníaco. A síndrome de Clérambault, como também é conhecida a erotomania, está no campo da esquizofrenia, e faz com que o erotomaníaco persiga e vigie aquele ou aquela que idolatra. É possível que hajam com violência se veem seus desejos negados ou ridicularizados.

É impossível não relacionar estes atos com a superexposição não-consentida das personalidades públicas, através da ação dos paparazzi e dos tabloides sensacionalistas. O erotomaníaco alimenta-se de detalhes sobre o cotidiano daquele que é alvo de sua obsessão, pois ele acredita que é nestes detalhes que o seu objeto de desejo se comunica com ele.

Quando ser fã é um crime todo cuidado é pouco, pois o atentado pode vir de onde menos se espera, de alguém que não mede nenhuma consequência. Como disse John Lennon, na canção The Ballad of John and Yoko: “do jeito que as coisas estão indo, vão me crucificar.” Não acertou na forma, mas acertou no conteúdo.

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Yuri Pires

Yuri Pires

Escritor e poeta em Chiado Editora
Autor de O Homem e o Seu Tempo (2014),
nasci em Recife nos fantásticos anos 80, migrei para São Paulo como tantos de minha nordestinidade. Escrevo porque necessito saber o final das estórias que invento, e tenho sorte porque encontro quem leia e goste destas estórias. Colaboro com La Parola e com Obvious.
Yuri Pires