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Vindo das entranhas das vielas do Brooklin, morador da favela do Canão, Sabotage não fazia questão de ser bom, mas construía sua rima pela melhora. Acelerado de forma ritmada, buscava sempre na melodia encaixar tudo que já tinha passado e sofrido, não como relatos, mas de forma lírica, se estruturando de forma empírica, fazendo com que a velocidade de suas palavras se tornassem novidade e referência, para quem quisesse construir um Rap com essência e qualidade.

A favela onde morava tinha um grande cano que a cortava de ponta a ponta, seguia sem saneamento básico, mas desde criança brincando pela favela, Sabotage e seus amigos andavam procurando o que fazer, como todo jovem, no tédio e no ócio, morderam o osso e acabaram sendo pegos pelos financiadores da favela, com traficantes e criminosos acabaram se juntando.

O rapper passou por histórias que só quem vive no cotidiano do crime tem ideia do significado, um exemplo é dos dentes que acabou perdendo, o da frente e mais ‘famoso’ ele perdeu para uma policial ‘gordona’ – como ele definiu – dando uma cabeçada em sua boca.

Mesmo assim manteve o sorriso, sempre procurando falar com as crianças, ser uma boa referência para o futuro da favela e ser simpático com todos, mesmo na vida do crime, buscava o melhor para a sua família, sempre estava de bom humor, mesmo tendo todas as dificuldades, seguia com todos os dentes que tinha a mostra, cantava enquanto vendia drogas.

Sabotage (1)

Criado pela nata da música, tendo o bom gosto musical da mãe presente em sua infância, o melhor da MPB em casa, ele usou essa referência para melhorar a qualidade do seu som. E demonstrando isso até mesmo no ofício de gerente nas bocas de fumo da favela, teve convite do próprio chefe do tráfico para sair dessa vida, falando que ele não nasceu para aquilo, que o dom dele era cantar, que ali não era vida pra ele.

Mas colocar o pão na mesa é necessário, ainda que tenha sido reconhecido pela quebrada, o rapper não tinha CD lançado, tocava nas rádios, mas tinha outros compromissos, fazia o soandim e procurava pelo pão de cada dia, perdeu a cabeça e participou de diversas guerras pelo seu lado no tráfico, perdeu a liberdade algumas vezes, mas deixou a vida do crime devido a sua habilidade e seu conhecimento.

Desde muito jovem com as melhores influências, apaixonado pela música Construção de Chico Buarque, tem referências de todos os cantos, desde Notorious Big até Sandy, de Pixinguinha até Malcom McLaren, passando por Linkin Park, explorava todos os ritmos, por isso tinha a capacidade de mesclar ritmos, desdobrar rimas e cativar a batida da música com seu tom de voz – que fazendo referência a sua própria frase – um pouco estragada pela Souza Cruz.

“Todo rap que escreve fará livros também”

Não mesclava só dentro da música, com o tempo se envolveu em várias áreas, atuou em dois filmes – O Invasor e Carandiru – não só atuando, mas escrevendo e ajudando na construção de personagens. O personagem Nego Preto do Carandiru é baseado em um tio do músico, e o traficante do filme O Invasor teve ‘consultoria’ com o malandro da favela do Canão.

MCDCARA EC001

Por passar por tantos lugares e artes, Sabotage é admirado até hoje de muitos lados, Maurinho arrumou uma explicação para o neologismo “Sabotage” sem o “M” no final:

“Sabotagem é o ato. Sabotagem é o ato. Sabotage é o cara que pratica o ato.”

Sabotar, botar em pratica a sabedoria que brota, de sobreviver em uma boca onde sibilar versos e reversos fazem com que o cabelo se levante e se abra a boca, com um dom ele venceu até onde pode, foi a referência para muitos, fugiu do seu tempo e do seu espaço, deixou vazio o espaço que ocupou na história da música, traficou arte para as quebradas de todo o país.

Portanto, antes de julgar, deitem-se no chão, abaixem suas armas, que dedo de gesso não ganha na quebrada. A história de Sabotage é confusa mesmo quando não se fala muito sobre, até mesmo sua lápide está incerta, com o ano de nascimento sendo errado.

Portanto, não tem como analisar uma situação que não se vive e não se vê, a única coisa que temos são suas obras e histórias, sua experiência passada em forma lírica e ritmada como poucos conseguiriam fazer, com uma referência absurda e um dom único, o rapper fez história na música nacional e estará para sempre vivo na cena do Rap.

Um pouco sobre o Sabotage:

Após o filme, em entrevista, Sabotage improvisa e canta sua música com o Beat Box do vocalista do Titãs:

Entrevista João Gordo com Sabotage:

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Gustavo Silva

Gustavo Silva

Projeto de publicitário e de redator, de ouvido e olhos sempre atentos.
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