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Sabe quando você joga um sal de fruta no copo com água e a cidadã começa a levantar voo em plena convulsão balsâmica? Esse é o orgasmo da ebulição aquática, quando essa mágica reação química da onomatopeia do Estomazil começa a chiar… Esse chorinho efervescente é o ponto alto da viagem dos antiácidos, ele neutraliza o antígeno que entrou de penetra no seu estômago e deixa tudo smoothie Jazz, igual estava antes desta triste visita.

Vejam esta analogia como uma banda de Rock ‘N’ Roll (no sentido mais amplo da palavra), que ao ser representada pelo copo e sua respectiva água, se junta ao conteúdo desconhecido da cápsula boticária para surpreender os problemas e mudar as coisas. Momento que é claramente representado pela reação química das bolhas.

Colocando em miúdos, veja o copo de água do Gov’t Mule por exemplo. O vidro era acostumado ao caldeirão de Southern-Rock-Blues-Funk, mas só quando a cápsula do Jazz “John Scofield” começou a entrar em erupção dentro da vidraça que o líquido desenvolveu todo seu potencial e dropou sem lash até vazar pelas beiradas do recipiente. “Gov’t Mule Featuring John Scofield – Sco-Mule” é um dos melhores lançamentos do ano e um dos maiores momentos do Gov’t Mule em todos os tempos, sem exagero.

Line Up:
Warren Haynes (guitarra)
Matt Abts (bateria)
Allen Woody (baixo)
Dr. Dran Matazzo (teclado)
John Scofield (guitarra)

Gov't Mule Featuring John Scofield - Sco-Mule - Capa

Track List CD1:

1. Hottentot
2. Torn Thumb
3. Doing It To Death
4. Birth Of The Mule
5. Sco-Mule
6. Kind Of Bird

Track List CD2:

1. Pass The Peas
2. Devil Likes It Slow
3.Hottentot – alternative version
4. Kind Of Bird – alternative version
5. Afro Blues

Trata-se da melhor apresentação ao vivo da banda! Temos 2 horas e 30 minutos de puro absurdo Jazzístico-instrumental, onde o groove do balancete funkeado exerce um poder de magnetismo tão absurdo e de fritação tão elevada, que a única comparação plausível é a citada nessas linhas, o carnaval do bloco do sal de fruta. A inspiração é indescritível, as músicas tomam um rumo tão natural e interminável que em dado momento você chega a ter certeza que eles conseguiram chegar ao outro lado… Jim Morrison iria se orgulhar desse live duplão, as jams beiram o misticismo.

Gravado em 1999 o estravagante Jazz desse disco só foi liberado no dia 27 de janeiro deste ano. O motivo é deveras triste, cerca de seis meses depois desses memoráveis momentos (já nos anos 2000), o baixista Allen Woody nos deixaria… E como a ferida era recente, esta verdadeira dádiva do Jazz foi arquivada. Só que os relatos lúdicos da força dessas duas noites (uma em Atlanta e outra na Georgia), ganharam tamanha força com o passar dos anos, que além da banda fechar 30 datas com Scofield para esse ano, os caras resolveram lançar este fantástico som, que é bom que se diga, ficou maturando na conserva de mestres como Herbie Hancock e será a cereja do bolo de 20 anos de história

Delete tudo que você já viu e ouviu made in Gov’t Mule. Desde a capa, tenha em mente que aqui tudo é diferente, a única coisa que se mantém, e talvez atinja seu ápice dentro da carreira dos envolvidos, é a qualidade desta união. Veja que tudo se curvou perante os padrões de estilo que esse CD segue, a capa relembra os tempos épicos de Blue Note, a banda deleta os vocais e fica só no tutu instrumental e o resto é fruto de doses cavalares, tiranossáuricas, faraônicas e homéricas de improvisação, sendo que a menor faixa do disco apresenta nove minutos de pura criatividade em evidência.

Gov't Mule - The Moore Theatre - Seattle

Tirando a performance, para variar sensacional de John Scofield, o que mais me desnorteou foi o estrago de Woody no baixo e o acompanhamento minimalista de Matt Abts, ambos músicos fantásticos, mas que aqui ainda conseguem elevar o padrão e dominar uma cozinha que esbanja complexidade, como se fossem verdadeiros habituês neste universo particular, que para o reverendo Scofield é seu quintal.

Embarque no bonde de Warren já com muita astúcia, “chegue chegando” com o groove convencido de “Hottentot”. Sinta a ótima tecladeira do ex membro do Aquarium Rescue Unit, Dr. Dran Matazzo, na cama de notas que apenas abre espaço para o fraseado acachapante do Soul de Scofield nesses dez minutos iniciais. Comecem a se aclimatar de leve, batendo o pézinho com convicção, sentindo o feeling das linhas de baixo… Sendo desleixado com o tempo e apenas se perdendo no mar de liberdade criativa e inspiracional que reina neste disco, que é bom salientar, é completamente fora de curva, são nós de Jazz, complexas rotas de “Torn Thumb“.

Animalescas passagens de Scofield e seus solos debulhantes com “Doing It To Death” e seus mais de doze minutos. 15 retumbantes rodopios de relógio nas jams de “Birth Of The Mule” e a melhor gravação de bateria do disco, até a apoteótica seção de fritação de pedaleiras quando Scofield resolve nos apresentar ao tema que nomeia este grande trabalho. Esqueça aquela balela de quantidade não é qualidade, aqui isso não vale nada, são quase vinte minutos de “Kind Of Bird“…

John Scofield & Warren at The McDonald Theatre, Eugene, OR

Você fica aí fundindo o cérebro e babando em transe com o baixo cru de Woody em “Pass The Peas” e sua cavalgada fazendo rapel na construção da música, se impressiona outra vez com Matt Abts e sua imitação de Elvin Jones na doentia e absolutamente sincronizada “Devil Likes It Slow“. E fica sem palavras para as versões opcionais dos furacões já passados de “Hottentot” e “Kind Of Bird“.

E mesmo assim não se encontra preparado para fechar esta nostálgica session de Jazz elétrico com o maior tema do disco, os 23 minutos da uivante “Afro Blues” e sua pinta de Sly Stone… Ouse apertar play meu caro, pense bem, porque depois que isso for feito suas regalias chegam ao fim, os riffs surgem com um grau de excentrismo poético que nem o Drummond tem moral pra chegar pedindo licença na poesia dessas partituras caleidoscópicas e efervescentementes funkeadas, baby.

Mais do que vinte anos de vida e música, creio que esse registro deixa claro como o Gov’t Mule é espontâneo. Não existe nada parecido com isso na discografia da banda, foi a primeira aventura nessa aresta sonora e os caras criaram uma atmosfera de orquestra com apenas 5 músicos. Mais do que uma amostra de pura e absoluta musicalidade, “Sco-Mule” relembra o talento do brilhante Woody e o faz sem o peso na consciência que fez com que Haynes abortasse o disco inicialmente. Que as festividades continuem e que a música nunca pare, tal qual neste exuberante disco… Tão eloquente quanto uma passagem de som do Grateful Dead… Tão chapado quanto a analogia de um estomazil com Jazz-Funk.

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