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Em 25 anos de história os Racionais MC’s já mudaram diversas vezes o seu estilo musical. No seu último álbum lançado, “Cores e Valores”, o grupo resolveu se ‘modernizar’ e se adaptar a cena que mais se exalta no atual momento do RAP. Com uma mistura do estilo trap vindo do sul-norte americano, com um pouco de referências da black music e seguindo um estilo mais romântico em suas letras, os quatro revolucionários mudaram outra vez. E neste trabalho resolveram em forma de mixtape contar uma nova história de apenas 35 minutos, mas de muitos burburinhos.

Nas últimas músicas que completam o álbum, Mano Brown questiona diversas vezes: “Quanto vale o show?”, na música exalta a guerra do crime em 1987 que rondava as vielas do bairro do Capão Redondo, exalta um corpo negro seminu largado no lixão, que consegue fugir da escravidão de um mundo de flagelado. Saindo para frente da vitrine, vendo Pierre Cardin esfregar uma bolsa que custa mais que a sobrevivência dele, descobrindo um mundo que só quem sobreviveu no inferno consegue enxergar o quão salvador aquilo pode ser.

E a pergunta que fica é “O show tem preço?”, “O grupo se vendeu?”, “Uma das maiores referências do RAP nacional é agora produto da vitrine?”. Não tenho a mínima intenção de responder a todas estas perguntas neste texto, mas a pretensão de olhar por cima a situação e esclarecer que nem do chão, nem do céu da para analisar. Só se colocando de fora da para realmente tomar posição sobre o atual momento do grupo.

Romântico foi a definição que dei pro álbum. Vamos a definição de romântico: “Que emociona como nos romances; diz-se daquilo que expressa poesia, cenas amorosas.” Poesia é iminente ao RAP, Ritmo e Poesia. Um sinônimo de romântico é ‘sentimental’, que desperta um sentimento. Chegar a todos os públicos só é possível despertando um sentimento em todos os ouvidos.

O RAP americano alcançou um patamar financeiro tamanho que dá pra se perder na quantidade de zeros que os representantes da cena obtiveram somente neste ano. E tamanho sucesso e reconhecimento são instintivamente desejados pela maioria dos que apresentam algum trabalho, seja artístico ou não. E não é questão de luxo, não é questão de cor, é questão que fartura alegra o sofredor. Não tem como fugir dessa pressão.

Fica claro nesse último trabalho dos Racionais a intenção de elevar não somente o grupo a esse patamar de incentivo norte-americano, mas o RAP nacional em geral. E mesmo que o RAP tenha evoluído muito, saindo das marginais e se elevando pela simples revolução presente na intenção de suas letras, tendo já ótima qualidade, somente com investimento e reconhecimento o RAP pode continuar subindo ainda mais depressa. Como disse Ed Rock, o RAP parou de engatinhar e hoje anda, e falta muito ainda para o mesmo começar a correr.

A intenção de dar um empurrão para o RAP levando o mesmo a todos os públicos é clara. Não só com o Racionais, mas com o Dexter e diversos outros Rappers. Tentando alcançar todo um público e desmistificar a imagem de marginal e som de baixa qualidade que hoje tem o ritmo.

Em todo mercado que trabalha com algum tipo de arte, seja ela qual for, temos o que eu chamo de ‘consumidores’ e ‘admiradores’:

‘Consumidores’ são os responsáveis por financiar a arte, tendo o capital, mas não tendo repertório na mesma, somente seguem uma onda de movimento.

‘Admiradores’ são os que acompanham a arte pela arte, apenas se preocupando com as referências que aquela arte possui e os estímulos que ela provoca.

Para que os ‘Admiradores’ tenham melhor contato com a arte que tanto admiram, é necessário que ela busque as melhores referências, adquira de forma clara todas as informações que lhe são inerentes. Até mesmo o saber empírico necessita de referências, não dá pra se observar o que não se tem contato e para se ter contato com o clássico e o refinado da música se precisa de um investimento. Mesmo que o conhecimento das ruas se faça como algo que exija criatividade em seu ápice, ter referências do fino do que já foi feito pode evoluir a construção da obra.

Foi só questão de tempo para o Brown por fim no sofrimento, mas isso não acabou com os lamentos e nem a descrição do arrebento. Mas abandonou seu naturalismo. Não quer mais só cerca branca e balança pras crianças. Quer cordão de ouro 18k, mas principalmente quer um triplex pra coroa. A melhoria de vida sempre esteve presente nas letras dos Racionais, mas enquanto era sonho estava de acordo com a identidade da obra.

Crescer o olho na obra do grupo não deve ser levado em consideração nos contras do disco. Eles enriqueceram com o trabalho deles, errado? Não. Ninguém luta a troco de nada. Se eles estão no caminho certo pra levar os que eram com eles nessa? Talvez.

Mano Brown

A referência ao Neguin Emerson, fundador da 1dasul, que faleceu em um acidente de moto, seja na capa, com o azul e laranja, seja falando sobre nas músicas, talvez seja um ponto a se levar em conta. Outro lado é o ingresso custar R$ 120 e só ser feito em casa de show com público classe A.

O show não vale isso. Mas o espetáculo que seria a abertura do cenário do RAP para novos músicos aparecerem, como o Criolo, que se escondem por trás da falta de oportunidades, seria maravilhoso. Antes de fechar o ouvido para o estilo musical por algum preconceito de uma ou outra atitude, tente abrir a mente e ouvir com outros ouvidos a boa nova de que o RAP está crescendo.

Mano Brown comentando sobre a ascenção do RAP e sobre o Racionais ter se vendido:

Clipe do Vida Loka parte 2, mostrando desde sempre a luta contra o racismo, logo no começo do vídeo:

Edi Rock dando entrevista à Globo, falando sobre a cena atual do RAP e sobre a mudança do grupo:

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