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Sim, eu sinto sua falta. Até mais do que gostaria, na verdade, eu não gostaria de sentir nada por você. Indiferença seria o suficiente, mas não é bem assim que as cosias funcionam, não podemos ter o total controle sobre tudo que sentimos. Não estou dizendo que não temos nenhum domínio sobre nossos sentimentos, sobre o coração, acredito que podemos e devemos tentar controlar aquilo que não nos faz bem, mas não é algo fácil. Não é exato quanto dois mais dois são quatro. Sentir é complicado, ao inverso a recíproca também é verdadeira. Não sentir é do mesmo modo complicado, porque isso implica que é algo em você morreu, e isso nem sempre é bom.

Queria que tudo fosse menos difícil, não os sentimentos, eles são tão simples, mas quando digo que sentir é complicado, é porque as pessoas são complicadas, nós somos complicados! Nós dificultamos tanto, nos precipitamos, desrespeitamos, desesperamos… E depois vem o arrependimento, aquela sensação que não deveríamos ter tentado, falado, calado…  Arriscado.

Veio-me aquela sensação que eu não deveria ter lhe encontrado aquele sábado à noite. Não deveria ter lhe esperado por mais de meia hora naquele bar, com as pessoas me encarando com ar de pena por estar sozinha ali, impaciente de dez em dez minutos checando o celular. Quando você chegou o garçom que gentilmente me deixou sentar enquanto lhe esperava fitou-nos com ar de incredulidade, como se dissesse ‘era isso mesmo que ela esperava com tanta ansiedade?’ Um cara que chegou e mal me cumprimentou. Chegou como se não estivesse nem aí para nada, jeito esse tão típico seu. Com o cabelo solto e desgrenhado, passos lentos, roupas comuns. Com aquele ar de é sábado a noite, mas vou ficar em casa. Enquanto estava toda produzida só para lhe ver, na esperança que me notasse e pudesse ouvir em elogio seu.

Mas tudo que ouvi foram amenidades e suas perguntas tão desinteressadas a respeito dos sufocos que passei ao lhe esperar. Depois veio a proposta de ir para outro lugar, mal eu sabia que esse outro lugar era um bar canto de esquina, e que nem você estava realmente interessado em ficar ali. Discutimos. Você disse que tinha se deslocado de longe para me ver, mas não disse que só fiz isso porque eu liguei perguntando onde você estava, senão na certa seria um bolo. Você foi andando na frente e me disse para ir também, porque não estava a fim de discutir. Como sempre pensando apenas nas suas vontades. Fomos para sua casa, calados sem trocar sequer uma palavra, eu andando na sua frente lentamente. Qualquer um que nos visse aquele momento jamais diria que éramos um casal, até porque acho que nunca fomos verdadeiramente um casal. Ao abrir o portão a única coisa que você disse foi que éramos muito diferentes, lembro de ter comentado que isso era perceptível, daí você retrucou dizendo que quem criava os problemas era eu. Como se todos os seus vácuos eternos com as mensagens que eu mandava não fossem nada de mais, você rebateu dizendo que eu era única que me importava com isso, afinal, não era uma exclusividade minha até porque eu não sou exclusiva, e além do mais é super normal não responder os outros. É totalmente comum ignorar e falar apenas quando convém.

Entramos e me senti deslocada, você sequer me apresentou ao seu amigo. Fiquei sentada na cadeira da cozinha enquanto vocês comentavam sobre a ‘gostosona’ da festa e outras trivialidades. Fiquei me sentindo deslocada por um bom tempo. Depois quando estávamos juntos em seu quarto, fiquei sentada na borda da cama enquanto você estava deitado. Não demorou muito tempo para eu cair em seus braços.

Que idiota fui. Alguns minutos depois veio à gota d’ água. Você me expulsou de lá. Não satisfaço seus caprichos, então porque ainda iria me querer lá, não é mesmo? Lacônicos outra vez caminhos até a esquina onde você me deixou e com poucas palavras se despediu. Disse-me um tchau que estava mais para um adeus. Atravessei a rua calada e de cabeça erguida, engolindo a vontade de chorar. Esperei o ônibus passar e lhe espiei voltar para casa. O ônibus demorou, mas não mais que o ressentimento a passar, logo depois percebi que tinha esquecido minha pulseira na sua casa, aquela que tanto estimava. Foi chato, mas não mais que ter perdido as esperanças em você.  Não, sentir não é complicado, as pessoas que são.

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