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“Quando eu morrer…” Essa frase não é algo muito auspiciosa para se dizer, logo de cara só coisas ruins são pensadas, mas é aquela boa e velha máxima: “Tudo tem seu lado bom”. E talvez o que mais assuste as pessoas em relação a, como diz meu avô,  “se encontrar com o Pedrão”, são tarefas inacabadas. Pode reparar, se você fala de óbito com qualquer um, o mais comum é notar uma esquiva abrupta do “entrevistado” e logo depois um silêncio, e mesmo que não tenham palavras, o pensamento de seu amigo repentinamente monge é confuso e ilógico, temeroso e melancólico: “Se eu morrer agora não serei lembrado por nada”, ou ainda, “O que fiz da minha vida?”.

Nesse momento mesmo, agora, enquanto bato nas teclas e escuto o ruído cacofônico que elas produzem estou pensando sobre o assunto. Acredito na força das palavras, morte por exemplo é algo impactante, mas seria ela impactante por que não sabemos o que acontece depois, ou por que quem não teme a morte resolveu seu business aqui neste plano?

Acredito que quem conquistou pelo menos alguns de seus objetivos morra com certa tranquilidade. Mas às vezes não, veja por exemplo o caso do ator e comediantemente falecido Robin Williams, ele tinha tudo e o fim foi lamentável, nada semelhante ao reflexo de uma carreira icônica, que foi pesada demais para ficar em seus ombros. Posso digitar caracteres até amanhã, mas UMA única resolução nunca será feita em definitivo, é um evento que por mais que você se prepare, na realidade nunca está preparado o suficiente… A morte de entes queridos, por exemplo, nos causam danos. Nem que você saiba que a tranquilidade se fez presente na vida daquele que partiu pode amenizar o baque inicial.

Eu quero ser lembrado, não quero ser rico, tampouco um lunático trabalhador, quero apenas sossego e escrita, e ter algum projeto pronto que possa eventualmente ser lido, ou quem sabe até publicado para me despedir da forma que para mim é perfeita, uma última obra, não sou bom com despedidas, tudo no estilo Johnny Winter, e de seu glorioso adeus ao som de “Step Back“, lançado dia 02 de setembro.

Line Up

Johnny Winter (guitarra/vocal)
Joe Meo (saxofone)
Meredith Dimmena (vocal)
Paul Nelson (guitarra)
Wendy Brown Rashad (vocal)
Don Harris (trompete)
Shauna Jackson (vocal)
Scott Spray (baixo)
Cynthia Tharpe (vocal)
Frank ”King Bee” Latorre (gaita)
”Blue” Lou Marini (saxofone)
Tommy Curiali (bateria)
Mike DiMeo (piano/órgão)
Tom ”Bones” Malone (trombone)

Track List

Unchain My Heart – Bobby Sharp
Can’t Hold Out (Talk To Me Baby) – Willie Dixon | com Ben Harper
Don’t Want No Woman – Don Robery | com Eric Clapton
Killing Floo – Howlin’ Wolf | com Paul Nelson
Who Do You Love – Bo Diddley
Okie Dokie Stomp – Clarence “Gatemouth” Brown | com Brian Setzer
Where Can You Be | com Billy Gibbons
Sweet Sixteen – B.B. King/Joe Josea | com Joe Bonamassa
Death Letter – Son House
My Baby – Willie Dixon | com Jason Ricci
Long Tall Sally – Little Richard/Robert Blackwell | com Leslie West
Mojo Hand – Lightnin’ Hopkins | com Joe Perry
Blue Monday – Dave Bartholomew | com Dr. John

Johnny-Winter---Step-Back-(2014)
Johnny Winter – Step Back (2014)

Antes de Johnny nos deixar seus fãs estavam plenamente informados que ele lançaria um novo disco, e que devido ao seu estado de fraqueza seria muito provavelmente seu último trabalho. Ele tinha até shows marcados para vir ao Brasil em outubro, mas no fim isso não se cumpriu como imaginávamos.

Porém, para muitos de seus seguidores, o bluesman não morreu até passar a data de lançamento desse disco. Senti em ”Step Back” um encerramento, um disco que pela ideia de concepção se encaixou perfeitamente com o que escutamos. Grandes covers e grandes músicos desfilando e partilhando pelo amor ao Blues e pela presença do mestre albino.

O setlist foi um dos melhores que ele já selecionou, temos Willie Dixon, Lightinin’ Hopkins, B.B. King, Howlin’ Wolf… Só o fino do Blues, e um Winter disposto a de fato se despedir de seus heróis, e em certos temas prefere fazê-lo sozinho, algo até mais intimista como nos três momenttos de “Unchain My Heart”, “Who Do You Love” e “Death Letter”.

A produção do disco ficou excelente. O som, maravilhoso, mescla aquele Blues mais raiz com momentos bem ásperos, outros de puro feeling e passagens até mesmo mais swingadas. O resto é filé de Blues. Ben Harper dá muita força quando se apresenta em “Can’t Hold Out (Talk To Me Baby)”, o primeiro “Z” do ZZ Top, Billy Gibbons mostra ótima forma em “Where Can You Be” e Bonamassa chega com um dos melhores momentos do registro, os quase oito minutos de B.B. King em “Sweet Sixteen”.

Johnny Winter e Joe Perry (que participa do álbum  em "Mojo Hand")
Joe Perry também participa do álbum em “Mojo Hand”

Mas não foi só isso, fora as performances estelares teve ainda um fato que deu outra cara para o som, e este foi o time de metais que foi convocado. Joe Meo no saxofone, Don Harris no trompete, “Blue” Lou Marini também no sax e ainda Tom “Bones” Malone no trombone, chegam com um tempero ácido que passa a última camada de som que esse disco precisava, um clima de Big Band excelente. A voz de Johnny soa firme e a guitarra inexplicável, parece que sem música o velhaco fica só o caco, em compensação quando pluga a guitarra o coração bate até mais rápido, ótimo disco.

Temos aqui, agora sim, o encerramento de uma era, óbvio que gostaríamos de ver o fechamento de sua tour aqui no Brasil e acompanhar seu período de aposentadoria com o mestre neste plano, mas a vida é assim e nem sempre temos o que é justo. Muito obrigado pela obra e pelos serviços prestados Johnny, foi uma honra ouvir cada um de seus LP’s.

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.
  • Drika

    Ótimo texto sobre esse mestre do Blues, um homem que respirou musica, meu músico preferido, o qual esperava ansiosamente ver tocar ao vivo, mas infelizmente não foi possível, com certeza Step Back é um grande presente para nós órfãos desse grande artista. My sweet Papa John.