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O grande Tim Maia, assim como a fantástica Janis Joplin, morreu de overdose. Mas não foi uma overdose de heroína como no caso da fantástica cantora americana. Maia nos deixou sem entrar na estatística dos narcóticos, mas mesmo assim foi vítima de uma overdose, só que de paradoxal da vida.

O cantor teve tudo, perdeu tudo, teve tudo novamente e perdeu tudo outra vez só pra desbaratinar… O lance do Sebastião era a volta triunfal, era entrar na Arena São Januário vendo a torcida do Vasco cantar com a cruz maltina no peito e dar a volta olímpica, tirar sarro dos críticos e usar o disco de ouro como porta copo. E digo mais, deve ser complicado conviver consigo mesmo sabendo que não existe problema nenhum no mundo, e sim com você mesmo. Levantar numa ressaca daquelas que embrulha até o almoço, e pensar que praticamente todos os problemas de sua vida foram causado por você mesmo, faltou bom senso, mesmo com imunização racional… É difícil ser inimigo de si mesmo.

No fim das contas até o Funk perdeu seus encantos. A imaginação do gênio bancava verdades insólitas que pareciam verdadeiras teorias da conspiração… A paranoia da maconha da lata pegou no Triathlon de THC, Bourbon e Sessions do mais branco e puro snowblind, para, no começo, durante e no fim, mascarar um monstro que seu próprio dark side alimentava, seu próprio Black Power… Até tu, Brutus.

rita-lee - Tim Maia - Filme
Rita Lee (Renata Guida) e Tim Maia (Babu Santana)

A realidade do calendário Maia ia além dos processos. Sua mística de showman ou seus costumeiros excessos, o ideal era simples para o ex -mestre do marmitex, viver intensamente. Por que assim como os grandes mestres da música, e de seu segmento de atuação, o Funk, Tim buscava em suas experiências pessoas o néctar criativo para misturar no Groove, a versão latina do George Clinton e sua Mothership Connection, Tim Maia & Vitória Régia. E pense o senhor, caro leitor, que valeria a pena viver sem essa anormalidade, seu dia-a-dia precisava estar nivelado com seus contos épicos de Soul, até porque sem isso não valeria a pena viver, a insanidade era sua desmagnetização racional. Maia contrariou até Einsten, ele repetiu as presepadas várias vezes e conseguia resultados diferentes!

E em 2007, com o lançamento da biografia do maestro (Tim Maia: Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia), plenamente arquitetada por seu biógrafo Nelson Motta, cidadão que teve a honra de dividir um baurete com o síndico em pessoa, que cada vez mais brasileiros começaram a não só curtir o som do brasileiríssimo, mas também entender sua vida e obra de fato. E como seu livro é o mais completo diário de bordo sobre esta figura quase folclórica, nada mais justo do que se basear nos relatos do escriba para jogar isso na telona.

E assim foi feito. 2014 será um ano muito lembrado porque teve eleição, sete gols da Alemanha e muito caos urbano, porém entrará na rota de recordações como o ano em que a vida de Tim virou filme, e que filme. Cinebiografia de Tim Maia dirigida e roteirizada por Mauro Lima, “Tim Maia” coloca em imagens o que Nelson teve o talento de colocar em palavras, e rapaz, que dobradinha, melhor que muito Romário e Bebeto por aí, coloca a dupla no banco e deixa o Robson Nunes e o Babu Santana na frente que eles resolvem.

Roberto Carlos e Tim Maia - filme
Roberto Carlos (George Sauma) e Tim Maia (Robson Nunes)

Que atuação! Primeiro surge Robson Nunes para movimentar os primeiros passos do ainda entregador de marmita. Atua no começo de tudo, começa a engatinhar no vocal, andar no violão e correr nos Estados Unidos, país que se dirigiu com pouco dinheiro, e que fora convidado a se retirar com menos ainda, roubando até peru com a ajuda de sobretudo.

Na volta os perrengues seguem rolando igual efeito dominó, porém nosso herói segue dando seu jeito e seu sonho de viver de música ainda segue vivo, e é aí que escuta-se um click na cabeça do futuro mensageiro racional: Velha Guarda, vamos atrás do Roberto e de seu amigo Tremendão, cidadão que teve a honra de ter aulas de violão com Tim, e que pelo andar da carruagem não parece ter adiantado muita coisa.

Muito bem interpretados pelo engraçado George Sauma e Tito Naville, Roberto e Tremendão (respectivamente), ajudam o mestre a segurar o forninho. Tim mostra algumas composições para a dupla e aí é que o jogo começa a mudar, e onde Babu entra para decidir. Sua atuação é fantástica, primeiro que ele fica bem fiel ao personagem fisicamente falando, segundo que a interpretação é realmente bárbara, digno de se indicar esse filme para representar nosso 7X1 no tapete vermelho da Academia.

Fábio e Tim Maia - Cauã Reymond e Babu Santana
Fábio (Cauã Reymond) e Tim Maia (Babu Santana)

Além dos atores já citados outra que trabalhou muito bem foi a Renata Guida (Rita Lee), sem se esquecer da avoada Mallu Magalhães (Nara Leão) e do Carlos Imperial (Luís Lobianco). Fora o faz-tudo Cauã Reymond que até narrou o filme, interpretando o grande Fábio, músico que tocou 30 anos com a fera retratada, que até no filme acaba com mulher bonita, vulgo Aline Moraes.

E em cerca de duas horas e vinte minutos, todos os envolvidos devem se orgulhar de terem participado deste filme. Eu por exemplo sempre fui muito fã do Tim, já tinha lido o livro de Nelson Motta e o relato de Fábio (Até Parece Que Foi Sonho – Meus 30 Anos de Trabalho e Amizade Com Tim Maia), livro que assim como as entrevistas feitas por Mauro Lima e Antônia Peregrino buscaram ainda mais veracidade para jogar em imagens e rapaz, saí do cinema ainda mais fã do cantor, e pela reação de meus conhecidos creio que não fui o único.

Não é só reviver o herói, o maior trunfo desse filme é mostrar a história crua sem romantizar os erros do astro, igual a rede Globo fez picotando o filme todo e mesclando com entrevistas. Tim errava tanto quanto nós, mentia um pouquinho porque errava mais e sua música ganha novo significado para os que viram esse grande momento, afinal de contas seu legado não precisa ser massificado, ele era tudo e nada ao mesmo tempo, e creio que isso não tem como ser camuflado, santo nacionalismo, santo Tim Maia…. Veja o filme… O Universo em Desencanto…

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