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Se há algo surpreendente nessa baboseira de jornalismo é que a qualquer momento você pode ser vítima de uma grande rasteira. Enquanto você navega nas águas tranquilas do lugar-comum, do fato corriqueiro e da piada pronta pode surgir do nada um dos míticos monstros atlânticos e devorar você e sua vigília em desalento. Pensando bem, talvez isso seja verdadeiro em qualquer carreira, profissão ou instância da vida. Lá vou eu, como bom jornalista, transformar o fenômeno da vida em algo aborrecedor e corriqueiro… espero não ser um bom jornalista hoje.

O fato é que quando fui informado que a Academia Soledadense de Letras receberia a visita de um autor para falar de sua obra não fiquei muito surpreso.  Saber que Eugênio Giovenardi, ex-sacerdote da Igreja Católica, agora escrevia sobre ecologia, sociologia e pensamento sem Deus também não me deixou tão surpreso, uma vez que eu já julgava de antemão ser algum artifício polemista. Entrevistá-lo na casa de Daniel Paese, membro da academia, foi algo que rompeu com as tristes expectativas rotineiras. Eugênio falou-me sobre sua trajetória de vida, sua ecossociologia, sobre a interdependência dos seres e sobre sua esperança sobre a humanidade. Suas palavras foram simples, comuns, naturais, mas estranhamente tiveram um efeito diverso. Fiquei surpreso, fascinado e principalmente inspirado.

Trajetória

Eu não saberia reproduzir ou lhes explicar, portanto creio que as palavras do homem, extraídas de um áudio (em uma découpage honesta, garanto) poderão ser muito mais efetivas que qualquer tentativa minha. Ele começou falando-me sobre o trajeto de sua vida.

Sou natural de Casca-RS, e nasci em 1934. Meu pai era especialista em carnes, muito requisitado em pequenos frigoríficos em Encantado, Nova Bassano e finalmente foi contratado para fazer toda a linha de salames Borella. Aos meus dois anos viemos para Marau, onde acabei fazendo meu curso primário e dali, como muitos gaúchos, minha família acabou migrando para Santa Catarina. Fiquei no Rio Grande do Sul: fui levado a um seminário e me formei na Ordem dos Freis Capuchinhos. Como São Francisco era nosso patrono aprendi a observar a natureza, mas a forma como via a natureza era um pouco diferente da forma como a vejo agora. Até meus trinta e poucos anos eu via a natureza como se ela fosse uma criação direta de Deus, como se toda a criação houvesse sido feita há poucos anos – a Bíblia tem 5.700 anos, então o mundo teria começado aí. Mais tarde é que compreendi que essas informações estavam absolutamente fora de qualquer sentido científico. Nessa altura da vida comecei a me questionar e a questionar também todo o “pacote cultural” que havia recebido em minha vida. Nessa época eu estava na França e fazia meu doutorado em Sociologia. Comecei a me aproximar cada vez mais de outros aspectos sobre a formação do universo, e me dediquei à escrita, começando por contar sobre minha vida – o primeiro livro que escrevi, O Homem Proibido, que saiu pela Editora Movimento. Descobri um certo prazer em contar mentiras longas – nome que dou aos romances. Escrevi uma sequência de seis romances e depois passei a escrever mais sobre a natureza.

Fui funcionário da OIT por mais de 10 anos, também trabalhei na FAO, e sempre estive ligado à natureza. Passei a compreender de maneira diferente as coisas e um dos elementos principais que comecei a observar foi a interdependência de todos os seres vivos: cada um depende do outro para sobreviver e se reproduzir. Comecei a perceber isso nas coisas mais singelas, como o gato que come o rato, eu que como a alface, o outro que come o frango, o gavião que captura o passarinho em seu ninho, o homem que precisa da árvore para fazer sua casa – todos esses elementos são seres vivos. Se trata de uma nova maneira de ver as coisas e como eu trabalhava muito com agricultores, comecei a estranhar o fato de que apesar de eles trabalharem muito com a natureza, pouco entendiam dela. Com toda facilidade eles pescavam, matavam animais, derrubavam árvores queimavam pastos e observando isso me questionei “onde vamos chegar com esse sistema de produção e essa população crescendo?”. Comecei a perceber que se nós não pararmos para rever esse sistema que usamos hoje vamos acabar transformando o planeta em um deserto.

Neste ponto dei uma grande guinada e pensei em uma grande revolução. Qual seria a revolução mais adequada para a sobrevivência e reprodução humana? Plantar árvores. Não derrubar árvores ou derrubar governos, mas sim plantar árvores; se compreendermos isso poderemos salvar o planeta e salvar com ele a espécie humana. Há muitos seres que não precisam do homem para sobreviver, mas o homem precisa de todos os outros seres para sua sobrevivência. Compreender esta interdependência é que vai ajudar os grandes e pequenos empresários, os grandes e pequenos comerciantes, todos os agricultores: se eles compreenderem esta interdependência será possível melhorar as relações humanas. Por isso me tornei um ecossociólogo. Inventei este termo porque passei a examinar comunidades de árvores, como elas se comportam e qual o processo que existe na convivência destas árvores. Percebi que há uma cooperação muito grande entre elas porque todas se alimentam do mesmo solo e crescem na medida em que há a possibilidade delas sobreviverem e se reproduzirem. E nós? Nós vivemos exatamente do mesmo solo, a diferença é que damos mais ênfase à competição do que a cooperação. No solo as árvores recolhem a quantidade de alimento que é necessário a elas, na espécie humana temos a tendência de fazer reservas para uns e nada para outros. Essa diversidade de comportamento é que prejudica as relações humanas.

Giovenardi em palestra na ASL (foto: J.O. Quevedo)

A Ecossociologia

Procurei pelo termo ecossociologia no Google, algo óbvio e fácil de se fazer. É claro que uma simples busca como essa não pode definir o estado da arte, mas é fácil perceber que se trata de um termo pouco usado e entre os resultados está o nome de Eugênio. Não duvido, tampouco questiono a autoria do termo – como ele também sou adepto da liberdade de pensamento, ou seja, pouco importa o autor de uma linha de pensamento, desde que eu possa trabalhar sobre ela. O interessante, e verdadeiramente importante aqui, é perceber como o significado que ele atribui à Ecossociologia é muito fácil de compreender, uma vez que expressa significados identificáveis.

A Ecossociologia tem esse significado de compreender como vivem os demais seres. Os seres vivos são compostos exatamente dos mesmos elementos: hidrogênio e carbono. Somos matéria, não temos outra coisa. Sentindo que há esta semelhança entre todos os seres vivos fica mais fácil de nos compreendermos. Na espécie humana, por exemplo, somos estruturalmente iguais: somos todos iguais porque todos temos o mesmo cérebro e principalmente porque todos nós somos capazes de expressar-se pela palavra. O que identifica o ser humano é que ele tem a consciência de si mesmo, mas ele também tem a consciência de que o outro também tem consciência de si mesmo. 

Podemos ser diferentes em um aspecto funcional: você é jornalista, eu sou sociólogo, ele é advogado. Uma pessoa sabe fazer esculturas, outras sabem pintar, outras ainda sabem comercializar… mas essa diferença funcional não diminui a igualdade estrutural e essa igualdade nos leva a compreender que nós somos todos iguais e que o outro sou eu. Você é o outro para mim, mas eu sou o outro para você, portanto eu sou o outro! Sou amigo do Daniel e devo olhar a ele como se eu fosse ele e ele fosse eu! Mas não é assim na rua…na rua diferenciamos os outros pelo funcional, e assim sempre seremos superiores ao outro porque nós temos primeiro a consciência do Eu e não temos a consciência do Outro. No reino vegetal não existe a consciência do Eu ou do Outro… aliás, não sabemos, pode ser que exista, mas ainda não chegamos a compreender essa linguagem vegetal. O  fato é que em uma comunidade vegetal você vê dezenas e centenas de árvores e arbustos que convivem alimentando-se do mesmo solo e entre elas a vida, como tal, é a mesma. Penso que a esperança da evolução humana é que mais e mais o ser humano compreenda que o outro sou eu. Então se o outro sou eu tenho de respeitá-lo como a mim mesmo. 

O importante neste planeta não é a pedra preciosa, neste planeta o importante é a vida. Podemos dar valor à pedra preciosa, mas não podemos dar ou retirar o valor da vida, porque a vida é um valor em si. A medida em que respeitamos todas as vidas passamos também a melhorar o sistema de relações. Sempre repito para aqueles que estão ao meu redor: na medida em que nós amamos a natureza nós passamos a melhorar o nosso respeito para com as outras pessoas. Ora, a  árvore nunca sai de seu lugar, mesmo que você a destrate, mesmo que a ameace com um machado… a aproximação, quase que uma permissão de se aproximar das árvores, é uma lição para nos aproximarmos das pessoas. Temos de estar em uma busca permanente da felicidade vegetal… que sintamos, ao nos aproximarmos de outra pessoa, que esta outra pessoa sou eu com outro nome. Claro que chegar a essa compreensão é um longo caminho, ainda que haja comunidades inteiras, na Índia, por exemplo, que perceberam isso. Mas até chegarmos a dosar a cooperação e a competição ainda vamos ter que avançar por algumas centenas de anos.

Um pensamento sem Deus

Giovenardi em entrevista (Foto: J.O. Quevedo)

Há quem possa criticar minha decisão por deixar esse subtítulo assim, por dois motivos. Primeiro: porque usei o termo ateísmo; não o uso por que mesmo Eugênio afirmando ser ateu preferiu usar estas palavras, logo segui o mesmo caminho. Segundo: o uso de “Deus” com letra maiúscula; não o faço por ser teísta (panteísta, para ser chato), mas simplesmente para ilustrar com propriedade as ideias abordadas, uma vez que a figura de Deus, como um ser religioso, moral e cultural teve importância na vida desse escritor.

O pensamento não religioso, o pensamento sem Deus, é um aspecto bem interessante em minha vida. Quando comecei a pensar dessa forma, tive momentos de desespero, de pavor, porque fui educado na religião. No pacote cultural que recebi um dos elementos principais era Deus. Ele era o responsável por tudo que havia… todos os códigos morais, éticos e políticos vinham por ele e aparentemente tudo estava pensado por ele. Esses argumentos começaram a perder força e eu comecei a perceber que aquelas verdades que me haviam sido passadas pelo pacote cultural não eram mais aceitas pela minha inteligência e pela minha maneira de pensar. Meu cérebro se rebelou contra esse tipo de coisa e aos poucos fui analisando como eu poderia interpretar tudo isso de maneira diferente.

Uma das formas que encontrei foi deixar Deus de lado, para poder pensar a minha vida…decidi aposentá-lo. Fui eliminando tudo aquilo que poderia perverter a pureza de minha consciência, pois tenho que ter um pensamento próprio. Descobri que aquilo que eu chamava de Alma era pura e simplesmente cérebro, pois é ele que emite todos as sensações, os prazeres, as dores, as interpretações que se faz do mundo. Isso me deu uma liberdade tremenda, pois percebi que já não precisava mais prestar contas a ninguém. Não precisava mais dizer que participava de um pecado original, que já nasci marcado e que um Deus precisou morrer na cruz para tirar a mancha de minha alma… mas não, o cérebro não tem mancha nenhuma. Quem maneja toda a vida da espécie humana, é o cérebro. Quando digo que a carga de Deus foi muito pesada para mim, como foi pesada para tanta gente, é porque ela nos carregava de normas, de códigos, de verdades absolutas e indiscutíveis e isso é contra o pensamento, contra o cérebro, portanto se é contra o cérebro não serve a mim. Não quero dizer que Deus, a Alma e tudo isso não exista… não sou proselitista. Alguém pode dizer que existe, mas o importante é que tudo isso não faz mais parte de minha vida. Me libertei disso e a busca da liberdade é tremendamente humana. Você finalmente descobre que você é você, e nada mais.

Com membros da ASL (Foto: J.O. Quevedo)

Palestra na ASL

Assim que a entrevista acabou agradeci pela oportunidade e mais tarde acompanhei ainda sua palestra na sede da Academia Soledadense de Letras. Durante sua fala ele explorou ainda mais suas ideias sobre ecossociologia e sobre ações verdadeiramente sustentáveis: falou sobre o seu Sítio das Neves no Distríto Federal, o lugar que se dedicou a transformar em uma verdadeira área de preservação permanente (APP) e onde “não se faz mais nada a não ser respeitar a natureza”. Explorou mais sua teoria sobre a interdependência entre os seres vivos, falou sobre anarquia e sua compreensão de que não se deve batalhar para derrubar governos, mas sim construir coisas novas, concordando que “pode haver governos, só haverá governo sobre mim”. É claro que falou sobre seu pensamento sem Deus, ideia polêmica, e demonstrou que ele e sua esposa finlandesa, a jornalista HilkkaMäki, criaram sua filha, Aino Alexandra, em plena liberdade – tanta que escolheu por vontade própria ser luterana.

Conhecê-lo, e conhecer suas ideias, foi uma experiência de transcendência. Transcenderam-se alguns preconceitos, o corriqueiro, a ideia de que não se pode fazer muita coisa. Novos significados foram tomados para tanta coisa que se vê e se ouve todo dia, e para qual pouca atenção verdadeira é dada.

Eugênio Giovenardi é licenciado em Sociologia (UFRGS e UNIJUÍ), pós-graduado em Sociologia do Desenvolvimento na Universidade de Paris e na Loughborough University of Technology, Inglaterra. Acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do DF e da Associação Nacional dos Escritores de Brasília. Ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura em 2003, pela sua obra Em Nome do Sangue.

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