COMPARTILHE

Aviso-te de início que não prossiga a leitura se ainda não teve o prazer de assistir ao filme, pois um pouco mais pra frente estarei a tratar sobre o seu final – e não há a menor chance de você assisti-lo com o desfecho já em mente. Estou longe de ser uma crítica de cinema, muito pelo contrário. Sou uma leiga no assunto e que fala apenas sobre o que ver. Nada mais. Não levo nem levarei em consideração quantos prêmios do Oscar o filme já ganhou, se o ator já foi premiado em outras categorias ou se sua fotografia é encantadora. Talvez vejam como um insulto à classe dos críticos e a quem dá valor a esse tipo de qualificação. A questão é que “A Vida é Bela” dispensa premiações. É maior.

Vivido durante a Segunda Guerra Mundial, o personagem principal – Guido – utiliza de sua criatividade, amor e esperança para salvar as pessoas a quem ama. Retratar uma guerra não é tão fácil, eu acredito. A maioria dos filmes que já pude assistir fez parte de uma representação fiel do genocídio, da força e derrota alemã, respectivamente. O que a gente desconhece muitas vezes é que embaralhadas entre corpos amontoados em campos de concentração, existem histórias belíssimas a serem contadas. A de Anne Frank é uma delas, e é impossível não se encantar com tamanha coragem e esperança.

“A Vida é Bela” é uma protagonização do improvável, do insuspeito e da exceção. Guido transborda esperança e humor. Consegue transformar um bombardeio, um holocausto generalizado, maus tratos constantes e uma vida regada a pão dormido de dias passados, em um jogo onde, de fato, a esperança é a última que morre. Impossível não se comover com o amor de Guido por Giosué – seu filho juntamente com a famosa Principessa –, principalmente no que diz respeito à sua maneira improvisada de não se preocupar com o que os outros irão pensar sobre suas atitudes. A inocência e o resguardo de seu filho, o futuro de um mundo que estava se destruindo em guerra, era mais importante do que tentar sobreviver ao caos. Ficar vivo era consequência.

a vida é bela cena 2

O que se faz mais incrível é a capacidade que o diretor – também protagonista – teve de retratar um período bastante escandalizado, sem necessariamente mostrar as diversas faces já muito massacradas pela tortura, perseguição e injustiça. Roberto Benigni – e me preocupo em frisar que não é a quantidade de estatuetas que ele coleciona em sua estante o ponto mais importante – foi excepcional no que diz respeito à construção de um cenário que, embora muito calejado, adquiriu um fervor e um espírito onde o amor ainda sim pode vencer tudo. Ou ao menos a certeza de que a luta e o esforço de evitar a decepção e a lástima fossem válidos até o último segundo final do filme.

Inclusive, o seu final é ainda mais extraordinário. Estarei aqui a contar sobre a fita, e como deixei de aviso no início, não o leia se ainda não assistiu. Não escrevo uma crítica, escrevo um elogio analisado de cada cena inventada e criada por Benigni. O esperado para uma história concluir com perfeição a sua alegria camuflada que provinha desde o início, seria que a família – sempre reunida – se reencontrasse num belo abraço triplo. Porém, além de trazer para as telas a realidade de que nenhuma minoria escapou das mãos dos militares, o filme ainda nos presenteia com a reflexão de que não haveria final mais compatível para comover e encantar. Não é a morte de Guido que encanta, não é o reencontro de Giosué com Principessa que nos deixa emocionados, não é a felicidade da criança ao se dar conta que havia “ganhado o jogo”. É o esforço e todos os sacrifícios do pai; a audácia e o amor de fazer o que fez pelo filho e, claro, pela família. É a sagacidade e sanidade que o personagem adquiriu no decorrer dos acontecimentos. E mesmo nos seus últimos minutos de vida ainda pensar em fazer daquele final uma alegria para o seu filho; não pensar na despedida, muito menos em lançar um olhar triste e de adeus a quem permanecia escondido até o jogo terminar por completo. É nesse momento que o egoísmo é ultrapassado pelo amor e companheirismo.

A verdade é que a história do holocausto e da Segunda Guerra Mundial realmente não passou de um jogo. Um jogo de poder e de sobrevivência, no qual viver seria uma luta diária com a paciência e a criatividade. “A Vida é Bela” é um exemplo pros anos 40, 90, 2000 e para todas as futuras gerações. Assim como a vida nos dá uma lição com cada erro que cometemos, ela também nos prepara a partir dos nossos próprios ensinamentos.

Gostou do que viu aqui?

Todo sábado enviamos um e-mail com os artigos da semana. Entre em nossa lista: