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“Um homem na estrada recomeça sua vida. Sua finalidade: a sua liberdade.
Que foi perdida, subtraída; e quer provar a si mesmo que realmente mudou,
que se recuperou e quer viver em paz, não olhar para trás, dizer ao crime: nunca mais”.

Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, nome dos representantes do rap nacional, são eles o Racionais MC’s que seguem na estrada sem aparecer nas grandes mídias e festivais.

Este ano Mano Brown e seus parceiros estarão em várias cidades brasileiras fazendo shows em comemoração aos 25 anos do Racionais, anos esses dignos de celebração por tudo que eles representam, por terem dado voz e rosto a uma parte da população que estava invisível e, entre tantas conquistas, colocarem o rap no quadro da música brasileira. O impacto provocado na mídia, pessoas e afins por eles é indiscutível e vai repercutir por muitos anos ainda.

Considerados pelos críticos, admiradores e estudiosos de música como um dos nomes mais emblemáticos e valorosos da cultura brasileira.

“À toda comunidade pobre da zona sul
Chegou fim de semana todos querem diversão
 Só alegria nós estamos no verão, mês de janeiro
 São paulo, zona sul”…

Racionais MC's (2)

O Racionais MC’s trouxeram para as rádios FMs o som da periferia, a dura realidade da favela, discutindo temas como pobreza, desigualdade, preconceito social e drogas.

Tínhamos também Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas mesmo assim o rap ainda era discriminado, marginalizado, ninguém (ou quase ninguém) ouvia.

O Racionais lançaram os discos “Holocausto Urbano” (1990), “Escolha seu Caminho” (1992) e “Raio X do Brasil” (1993).  Após alguns anos parados voltam em 1997 com o disco “Sobrevivendo no Inferno”, foi o auge do Racionais. Agora sim, o rap ganhou espaço de destaque na mídia e a música negra ganhou a merecida e batalhada notoriedade.

O disco trazia obras primas, músicas quilométricas de até 11 minutos, sons que fizeram muitas pessoas imaginarem como era a vida na favela e até a dos presidiários em “Diário de um Detento”. O clipe desta música ganhou o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência, em 1998, fazendo com que o grupo do Mano Brown reinasse em absoluto no cenário do rap nacional.

“Aqui estou, mais um dia
 Sob o olhar sanguinário do vigia
 Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK
 Metralhadora alemã ou de Israel
 Estraçalha ladrão que nem papel…”

No mais, um disco com protestos velados e composições bem feitas. Impressionando com suas letras de abordagem racial, politica e social. Questões essas que viraram hinos, cantado por mais de 50 mil manos e minas.

 “Dim dim dom  Rap é o som
 Que emana no opala marrom, E aí”?

Sim, havia muitos “opalas marrons” passeando pelas ruas ouvindo Racionais com o som no talo.  “Sobrevivendo No Inferno” ainda teve clássicos como “Capitulo 4 Versículo 3” e “Mágico de Oz”, letra que chamava a atenção narrando as dificuldades de quem é pobre e negro no Brasil.

“Aquele moleque, que sobrevive como manda o dia a dia
 Tá na correria, como vive a maioria, preto desde nascença, escuro de sol
 Eu tô pra vê ali igual, no futebol. Sair um dia das ruas é a meta final
 Viver decente, sem ter na mente o mal…”

Não podendo esquecer-se da fantástica “Tô ouvindo alguém me chamar”, que narra a história de Guina e seu parceiro, personagem este que está na cama de um hospital à beira da morte e começa a lembrar de como ele foi parar ali. Ao final da música ele morre, de acordo com o som do aparelho que mede os batimentos cardíacos. Como são comuns histórias como essa, e quantos “Guinas” existem por aí.

“Lembro que um dia o Guina me falou
Que não sabia bem o que era amor
Falava quando era criança
Uma mistura de ódio, frustração e dor
De como era humilhante ir pra escola
Usando a roupa dada de esmola
De ter um pai inútil, digno de dó
Mais um bêbado, filho da puta e só”

Racionais MC's (3)

Em 2002, o grupo lançou “Nada Como um Dia Após o Outro Dia”, disco duplo que foi bem recebido pela crítica. Trouxe sucessos como “Vida Loka”, “Negro Drama”, “Jesus Chorou” e “Estilo Cachorro”. Em 2006, o grupo lançou “1000 Trutas, 1000 Tretas”, primeiro DVD do grupo. No DVD podemos ver um show de verdade de um grupo de verdade, que sem firulas empolga até quem está sentado no sofá.

Na música “Jesus Chorou” o rapper parece fazer um lamento que reflete o estado de pensamento do homem moderno, frustração, medo, reconhecimento e um lamento pessoal, pois já foi muito criticado, inclusive por seu êxito financeiro.  É como se ele dissesse: Jesus também foi injustiçado e chorou, quem disse que eu não posso chorar?

“A lágrima de um homem vai cair,
Esse é o seu B.O. Pra eternidade,
Diz que homem não chora,
Ta bom, falou, não vai pra grupo irmão,
 ai Jesus chorou!”

E claro não podemos deixar de falar do ápice do DVD, a música “Negro Drama”. Impossível não “senti-la”, cada palavra, frase, batida. Música esta, feita para você que insistentemente continua a julgar o rap como som de ladrão, maloqueiro.

 “Inacreditável, mas seu filho me imita
 No meio de vocês, ele é o mais esperto
 Ginga e fala gíria, Gíria não, dialeto
Esse não é mais seu.  Ó, Subiu!
 Entrei pelo seu rádio. Tomei.  Cê nem viu…”

Para este ano além dos shows comemorativos o grupo promete um CD com inéditas, cuja previsão de lançamento será em setembro. Segundo Edi Rock, o álbum terá mais de 10 faixas e menos de 20, e ainda acrescenta, “o disco continua pesado e está atual nas ideias”.

E em meio a tanta guerra, declarada ou não, suas músicas continuam atuais. Então, termino este texto proferindo um dos desejos do Racionais.

“Queria que Deus ouvisse a minha voz
 E transformasse aqui num Mundo Mágico de Oz.”

Racionais-MC's-(4)

É possível que Edi Rock quando compôs “Mágico de Oz” e almejou morar lá, baseou-se na frase de Helena Blavatski citada no livro homônimo de Frank  Baum“não há perigo que a intrépida coragem não consiga conquistar, não há prova que a pureza imaculada não consiga passar, não há dificuldade que um forte intelecto não consiga superar”.

Intelecto, pureza de sentimentos e coragem, três características que nos deixariam mais próximos à plenitude. Enquanto isso, vamos sonhar e esperar um final melhor, sempre.

“Sim, ganhar dinheiro ficar rico enfim, a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim, minha verdade foi outra, não dá mais tempo pra nada… bang! bang! bang!”

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Giseli Betsy

Sou uma delicada estudante de Letras, que tem inclinações “hereges” por Filosofia, Psicologia e Arte. Nas horas livres assisto filmes de terror e escrevo rimas pobres, nada ao estilo Florbela Espanca não, meras rimas simples. Um tanto complicada, relativamente chata, gosto da felicidade, mas não faço dela absoluto. Apaixonada por noites de lua cheia, gostaria de ser uma das mulheres de Chico Buarque, sonho em morar na praia de frente para o mar. Até lá, sigo vivendo com arte seja como flor! Acredito na poesia da imagem e valorizo o poder da palavra.

"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente." (Simone de Beauvoir)
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