COMPARTILHE

Existe, na literatura, um país chamado Lisarb. O Lisarb foi “descoberto” há mais de 500 anos, mas os povos primitivos – que hoje são minoria – já viviam em suas terras há bem mais tempo. Hoje, no Lisarb, os donos são outros. Por sinal, aí está uma característica muito vangloriada pelos lisarbeiros: “dono”. Todos adoram ser donos de algo. Donos de empresas. Donos de empregadas domésticas. Donos de cônjuges. Donos da razão.

O Lisarb possui uma recente Constituição Federal, declarada em 1988. Nela está explícito que todos os nativos são iguais perante a lei, independente de raça, credo, cor, time do coração, opção sexual e hábitos bizarros. Entretanto, no mesmo Lisarb, existe uma pirâmide sócio-profissional, uma hierarquia que define, em tese, quem é mais poderoso que quem.

Assim como nos quadrinhos da Marvel, em Lisarb algumas pessoas também possuem superpoderes. É verdade que ninguém lê mentes, se transmorfa ou possui garras de adamantium. Os superpoderes aqui são outros.

Um dos habitantes de Lisarb que é dotado de superpoderes se chama João Carlos de Souza Correa. Vamos chamá-lo apenas de João Carlos para poupar caracteres. Bom, João Carlos é juiz, e tem o que muitos chamam de rei na barriga. A monarquia em Lisarb acabou no século XIX, mas alguns praticantes ainda conseguem reinar. João Carlos é um deles.

Em Lisarb, os habitantes transitam em automóveis. Muitos são privados e possuem uma placa de identificação e documentos. Para dirigir esses automóveis é necessário ser licenciado e portar um documento chamado HNC. Eventualmente, há fiscalizações em algumas cidades, realizadas pelos chamados agentes de trânsito. Segundo a legislação, o agente pode multar o motorista quando este estiver sem a HNC ou se o carro estiver sem documentação e sem a placa.

É aí que entra a história de nosso herói, anti-herói, ou simplesmente, almofadinha da sociedade com superpoderes. Certo dia, João saiu com um carro sem placas, sem documentos e sem sua carteira de habilitação. Dirigindo na maior tranquilidade se deparou com a fiscalização. João Carlos então se apresentou como juiz – ocupação em que a pessoa é encarregada de decidir situações conflitantes com a lei por meio de uma imensidão de papéis e depoimentos de terceiros, mas sem nunca estar presente para ver como são as coisas com os próprios olhos. Voltando, ao ouvir o que o juiz proferiu, a agente retrucou: “você é juiz, mas não é Deus”. Foi aí que João Carlos utilizou seus superpoderes. “Onde já se viu dizer que não sou Deus?”, deve ter pensado o juiz. Dessa forma, agiu como uma boa parcela da população de Lisarb e abriu um processo contra a agente. Inverteu a situação por meio de um chorume judicial, também conhecido como processo por danos morais.

Judge Ally
“Declaro que Chapéuzinho Vermelho e Vovózinha são culpadas por todas as suas acusações.” | via Flickr

João Carlos estava sem documentos que a legislação exige. A agente de trânsito estava fazendo o seu trabalho. João Carlos achou que a agente foi ofensiva ao ter dito que ele não era Deus para não ter um tratamento diferenciado. A agente de trânsito foi então multada pela Justiça no valor de 5 mil verdadeiros (nome da moeda local). João Carlos passou, como em um passe de mágica, de infrator à vítima. Assim são as coisas em Lisarb, um país que parece estar virado de cabeça para baixo em muitas situações lideradas por pessoas com superpoderes. A principal? O significado da palavra justiça.

Essa história – que foi real e aconteceu e aqui está o link caso você ache um absurdo – fez eu lembrar de uma palestra do filósofo Mario Sergio Cortella. O vídeo tem pouco menos de 10 minutos e é daqueles que gruda na memória e faz a gente entender a verdadeira dimensão das coisas.

“Já pensou? Já imaginou? 6 bilhões. Quem é você? Quem sou eu? Quem sou eu pra achar que o único modo de fazer as coisas é como eu faço? Quem sou eu pra achar que a única cor de pele adequada é a que eu tenho? Que sou pra achar que único lugar bom pra nascer foi onde eu nasci? Quem sou eu pra achar que o único sotaque correto é o que eu uso? Quem sou eu pra achar que a única religião certa é a que eu pratico? Quem sou eu? Quem és tu? Tu és o vice-treco, do sub-troço” (Mario Sergio Cortella).

Parafraseando um poetinha que conheci um dia: “Se a justiça não pune, o tempo pune”. Por isso a importância de saber quem você é e qual a sua função no universo. Assista a essa baita aula de ciência e filosofia abaixo e, por favor, coloque-se em seu lugar, baixe sua bola e não seja um João Carlos otário.

“Tu és um indivíduo entre outros 6,4 bilhões de indivíduos, compondo a única espécie entre outras 3 milhões de espécies já classificadas, que vive em um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre outras 100 bilhões de estrelas, compondo uma única galáxia entre outras 200 bilhões de galáxias em um dos universos possíveis e que vai desaparecer” (Mario Sergio Cortella).

Gostou do que viu aqui?

Todo sábado enviamos um e-mail com os artigos da semana. Entre em nossa lista:

Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
COMPARTILHE