COMPARTILHE

No pavilhão principal da Jornada de Literatura de Passo Fundo, na tarde de 29 de agosto, estavam José Castello, Roberto DaMatta e Marcelino Freire. O tema da discussão era: “Trabalho, autonomia e consumo”. E isso tem tudo a ver com o que vivenciamos hoje, sobretudo na internet, onde o trabalho é mais livre do que nunca.

Mas emprego e trabalho não são sinônimos?

Emprego é o que você faz para comprar comida. Trabalho é o que você faz para você e para o mundo. (Ignácio de Loyola Brandão)

O mediador do debate proferiu as palavras descritas acima enquanto discursava sobre a diferença entre trabalho e emprego. Pensando a respeito, entra em jogo aquela velha questão: Você está fazendo o que você ama? Muitos vão dizer que nem sempre é possível, que muitas vezes a necessidade financeira, a responsabilidade com a família e tudo mais o obrigam a seguir uma carreira que não é a mais desejável, mas a mais sustentável. Isto é muito verdade, nem sempre podemos sobreviver com o que gostamos de fazer de fato, mas podemos achar um caminho, desde que haja uma direção para ele.

Já dizia um ditado apócrifo: “Primeiro a gente trabalha muito para depois fazermos o que gostamos”. De forma similar foi o que aconteceu com o poeta Marcelino Freire. Antes de se tornar integralmente escritor, Marcelino possuía um emprego chatíssimo, era revisor de rótulos de embalagens. Marcelino é caçula de uma mãe que teve 9 filhos, no sertão pernambucano. Era pobre, muito pobre, mas queria ser poeta. Para tanto, precisou de um emprego que pagasse algumas contas, e o fez de forma competente. Ele brincou no debate dizendo “eu era o melhor do mundo no emprego de conferir rótulos, mas não era isso o que eu queria, eu queria ser poeta”.

Muitas pessoas não sabem o que querem, mas isso não é tão grave. O mais grave é não saber o que não quer. Enfim, o tempo foi passando e Marcelino, sempre que possuía um tempo, escrevia contos. Foi escrevendo e os contos foram se acumulando até que ele não precisou mais conferir rótulos para sobreviver. Como resultado de talento e trabalho, pôde viver sua vida feliz sendo poeta.

A foto é só para mostrar como o dia estava bonito.
A foto é só para mostrar como o dia estava bonito, mas tem tudo a ver com a Jornada.

Ok, eu sei o que quero. Quero ser escritor.

Bem, o debate sobre trabalho, autonomia e consumo em uma Jornada de Literatura obviamente caminhou pelos ramos da escrita. Posso dizer que, com algumas poucas ressalvas, fiquei satisfeitíssimo em assistir a um debate sobre algo que é bastante valorizado aqui no La Parola: a escrita pessoal e livre.

A grande crítica feita pelos debatedores era a respeito das editoras que tentam podar alguns escritores, trocando diálogos, encurtando parágrafos, mudando personagens et caterva. Um participante enviou uma pergunta a José Castello explicando que possuía uma história pronta em mãos há dois anos, mas que a editora só a publicaria se o final fosse alterado. O escritor desconhecido estava querendo um auxílio. E José Castello respondeu enfaticamente: “Não mude o final. Seja intransigente”.

A principal teoria dos convidados era de que se você muda uma história por pedidos comerciais, você está se suicidando como escritor, está vendendo a sua alma. Citou inclusive um exemplo de um amigo que teve o livro completamente alterado em sua tradução para a língua inglesa. O amigo teria dito que este era o único meio para que o livro vendesse no mercado norte-americano. Atitude abominável pelos convidados. Mas e aí, como fica? Alterar a obra a pedidos comerciais para poder viver fazendo o que gosta ou continuar com um emprego que pode não ser tão agradável por não aceitar a mudança? O tempo do debate acabou e não leram minha pergunta. Sacanagem!

Para finalizar, um texto que não foi citado no debate, mas que mata a pau. Durante a tarde, foram citados ilustríssimos escritores brasileiros, Machado de Assis, Mário de Andrade, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Mário Quintana e tantos mais. Como a literatura é uma arte global e o patriotismo cultural é intelectualmente limitado, posto abaixo um texto que explica tudo – e muito mais, porque quem escreveu sabia do que falava – a respeito do que foi debatido sobre ser escritor.

charles bukowski

Então você quer ser um escritor?
Charles Bukowski

Tradução: Dito pelo maldito

Se não estiver explodindo em você. apesar de tudo, não escreva.
A não ser que saia espontâneo e sem permissão do seu coração, da sua mente, e da sua boca, e suas entranhas. Não escreva.
Se você tem que se sentar por horas encarando a a tela do computador ou debruçado sobre o sua máquina de escrever procurando as palavras. Não escreva.
Se você estiver fazendo isso por dinheiro ou fama, não escreva.
Se você estiver fazendo isso porque quer mulheres em sua cama, não escreva.
Se você tem que sentar lá e reescrever de novo e de novo, não escreva.
Se der o maior trabalho só de pensar em fazer, não escreva.
Se você estiver tentando escrever como outra pessoa, desista.

Se você tiver que esperar até isso rugir dentro de você, então espere pacientemente.
Se esse rugido nunca sair, faça outra coisa.
Se você tiver que ler primeiro para sua esposa, ou para sua namorada ou seu namorado, ou para seus pais ou a quem quer que seja, você não está pronto.

Não seja como tantos escritores, não seja como tantos milhares de pessoas que se dizem escritores, não seja chato, estúpido e pretensioso, não se deixe consumir pela vaidade.
As bibliotecas do mundo bocejam até dormir sobre tipos assim. Não aumente isso. Não escreva.
A não ser que saia da sua alma como um foguete, a não ser que isso faça-o
levar à loucura ou suicídio, ou assassinato, não escreva.
A não ser que o Sol dentro de você esteja queimando suas vísceras, não escreva.

Quando for realmente o momento, e se você for escolhido,
ele irá fazê-lo por conta própria e continuará acontecendo até você morrer, ou isso morrer em você.
Não há outro jeito.
E nunca houve outro.

Original aqui.

Siga La Parola:

http://facebook.com/LaParolaOnline
http://twitter.com/LaParolaOnline

Gostou do que viu aqui?

Todo sábado enviamos um e-mail com os artigos da semana. Entre em nossa lista: