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No ano passado muitos músicos entraram no embalo da choradeira do Coldplay para registrar alguns dos discos mais patéticos e óbvios que foram prensados em tempos recentes. Todo esse emaranhado de fim de relacionamentos, problemas pessoais e o sofrimento pela fim de ciclos, começou a virar foco para muitos artistas, só que para o infortúnio da nação, nenhum dos choramingos lançados virou um “Blood On The Tracks”, muito pelo contrário.

Existe uma diferença gritante em chorar por nada e tentar fazer alguma diferença no mundo com o relato de problemas, até porque existe aquela velha máxima: “A arte imita a vida”. Acontecimentos que possam alterar a estabilidade de qualquer pessoa costumam ser o estopim para discos realmente sentimentais. Só que esse lado se perdeu, o negócio atualmente é falar que você se separou e depois lançar um registro digno de pena e que faça os consumidores sentirem compaixão suficiente para gastar uma quantia que, sinceramente, parece um caminhão de dinheiro quando o produto final se equipara ao musical da Peppa Pig.

E com isso em mente, declaro que fui completamente armado com pedras e mais pedras quando descobri que a Björk se separou de Matthey Barney em 2013, e que depois de 4 anos estava com o sucessor de “Biophilia” (2011) debaixo do braço. Mas agora sim, depois de um 2013-2014 onde toda a nata de músicos medíocres achou que poderia reproduzir épicos como “Here, My Dear”, finalmente tivemos algo relevante sobre o fim de alguma coisa.

Sempre vi a Björk como um ateliê ambulante. Em várias épocas de minha vida fui atrás de seus discos só para saber o que estava acontecendo na música, que na cabeça dessa islandesa toca de maneira única. Primeiro que o termo “música” é absolutamente amplo em sua mente, ela não divide nada e toca absolutamente de tudo, sempre misturando e fazendo com que as vertentes, por mais diversas que sejam, consigam cooperar de maneira exuberante.

Bjork [4]

É só dar uma rápida repassada em sua discografia, são dezenas de gêneros listados em cada disco, pois nenhum resenhista possui a cara de pau (graças a Jah), de restringir toda a arte que essa cinquentona produziu, produz e produzirá. Ela passou pelo folk, brincou com a onda trip-hop, fez rock, foi alternativa, eletrônica, industrial, ambiente, psicodélica e com “Vulnicura”, seu nono disco de estúdio, lançado dia 20 de janeiro deste ano, a sinhá consegue retomar as experimentações com música clássica e continuar fazendo sons que serão novidade até os anos 3000.

E como sua marca registrada é fazer tudo de maneira única, neste novo disco ela faz algo que, como já foi citado, já foi feito algumas vezes, só que desta vez o ângulo escolhido é plenamente novo. Em todos os trabalhos mencionados, seus respectivos criadores fizeram um resumo do acontecido para poder colocar nas partituras toda a gama de crises que foram sentidas, mas a Björk não, uma das mentes com o maior conhecimento bruto e prático da música precisava ir além e, com isso, seu lançamento é um diário “antes e depois” do fim de seu casamento.

Sem chorar, sem reclamar e apenas aceitando e olhando para o futuro, nossa heroína retratou o acontecido antes, durante e depois do processo, sendo que o tom sereno que permeia o disco mostra algo de positivo no fim, coisa que nunca vi em nada desta natureza. Isso sem contar a finesse com que a solteirona avalia suas possibilidades e filosofa sem aumentar o tom, criando um de seus melhores trabalhos e, mais do que qualquer coisa, se reaproximando do público de maneira humana, coisa que a julgar por sua voz de anjo feito de gelo nunca pensei que fosse um fato biologicamente verídico.

Mas pra quem conhece esta senhora de outros invernos esse lado não é novidade, só que mais do que tudo o ponto primordial desse trabalho é manter a mística dessa genial artista, que em cada trabalho consegue criar uma atmosfera única. Energia cósmica e sentimento místico que em “Vulnicura” falam de algo doloroso e ainda assim começa e termina com uma positividade que lava a alma, sem deixar o ouvinte naquela tradicional fossa.

Bjork [2]

Abrindo os trabalhos com a elevação de “Stonemilker” e os retratos de oito meses antes do fim, a leveza que beira o sublime em “Lionsong” e continua se aproximando do zero com 4 meses para o ultimato, e “History Of Touches” de apenas um mês antes de algo denso, o fim. E é interessante notar que depois dessa faixa tudo fala sobre o que acontece depois, mas a música segue o mesmo padrão, logo, podemos inferir algo grandioso, por trás de tudo que se encerra existe um novo início, o que não significa necessariamente uma nova existência e sim novas possibilidades, por isso a mesma vibe, só que com novos olhares implícitos.

Os arranjos são fantásticos, o feeling chega a ser palpável e a tristeza apesar de existir não fica evidente. É um processo de cura que em nenhum momento machuca o ouvinte, é até grandioso notar como até mesmo a Björk (!) já teve que passar por isso. Só que meu único alerta é a densidade desse novo trabalho.

Não é um CD complexo, mas é necessário concentração. Em 9 temas vale ressaltar que em apenas duas oportunidades (“History Of Touches” e “Quicksand”), a viagem não chega em seis, oito ou até mesmo dez minutos, mas a fluência das musicas é digna de deixar essa folha em branco tamanho o caráter abstrato das narrações e das deliciosas passagens, que é bom dizer, também primam por não exagerarem, contando com uma crew compacta de 15 músicos.

Mais do que se admirar com “Black Lake”, “Family” e “Notget”, o lance com essa amostra sonora é aproveitar toda a audácia de um projeto que nasceu da forma mais orgânica possível e que foi dado para nós como um livro aberto, exalando sinceridade e passo a passo com “Atom Dance”, “Mouth Mantra” e “Quicksand” até fim da cronologia do encerramento, que para essa genial senhora significará mais músicas, novas descobertas e uma tour que passe por nosso país, afinal de contas 2007 já passou faz tempo. Grande disco, sincero como sempre, muito bom e ainda assim transgressor como Björk.

bjork_vulnicura_capa
Björk – Vulnicura

Track List:

1. Stonemilker
2. Lionsong
3. History Of Touches
4. Black Lake
5. Family
6. Notget
7. Atom Dance (com Antony Hegarty)
8. Mouth Mantra
9. Quicksand

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.
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