Há de se saber que novelas nem sempre são tão banais. É necessário um olhar um pouco mais profundo quando o botão de ligar for acionado. A Rede Globo traz as suas novelas pautadas em um cronograma fácil de analisar: as novelas das seis se baseiam em histórias sociais, incorporadas em personagens atípicos da modernidade e em um enredo de época que encanta telespectadores; a novela das sete é mais temática, há uma contextualização mais moderna, mais cômica e divertida, com uma mistura até um pouco exagerada de ficção; a das nove ou é uma trama bem elaborada em cima do mocinho e do vilão ou é uma tentativa de retratar a realidade familiar e social em que nos encontramos.

Porém, como falei, há uma nova percepção para os olhares noveleiros. Não se trata de um simples passatempo, e irei mostrar o porquê, levando em consideração o atual remake da novela Meu Pedacinho de Chão –  primeiramente gravada em 1971 por Benedito Ruy Barbosa – que será transmitida em apenas 100 capítulos e promete levantar uma grande crítica social. A história se passa na Vila de Santa Fé tendo apenas 20 personagens em seu elenco, de modo que todos se interligam de alguma maneira. Não se pode, claro, menosprezar a trama romântica que permeia boa parte dos capítulos, porém, pode-se adquirir um novo olhar sobre isso.

A questão social a qual toma foco durante toda a novela Meu Pedacinho de Chão não é tão nítida como deveria ser, mas isso se dá devido aos telespectadores estarem acostumados a se divertirem em frente das telinhas. A história já se inicia com a questão da alfabetização. A maioria dos trabalhadores e crianças da Vila não sabem ler nem “escrevinhar” (conforme o linguajar e sotaque dos personagens). A trama se inicia com a chegada da Professora Juliana, que vem trazendo seus conhecimentos diretamente da cidade de São Paulo juntamente com um amor imenso pelo aprendizado ao próximo. A instalação da escola na Vila de Santa Fé não é tão fácil quanto se espera. Da mesma forma que o nosso país ainda passa por um processo de educação aos pobres e analfabetos, na ficção não me parece diferente. O “manda-chuva” da região, o coronel Epaminondas, não aceita que a escola seja inaugurada, por que, afinal, povo alfabetizado é povo consciente e instruído. Por fim, mas não sem obstáculos, a escola é instaurada no centro da Vila, com aulas para crianças e adultos.

Meu Pedacinho de Chão

Em seguida, a ideia da construção de um posto de saúde toma conta dos boatos dentro das casas e pelas ruas do vilarejo. O Dr. Renato, novo na região, chega com a ideia inovadora de instalar um posto médico para a população, visto que a benzedeira Mãe Benta é a única que se aproxima do caráter cuidadoso de um médico. Por questões políticas, como até os dias de hoje ainda se observa, a construção da nova edificação não é concluída sem antes passar por diversos problemas. Além disso, após seu término a população ainda se encontra tímida para frequentar o posto, tendo em vista que foram estigmatizados a não precisar de um profissional da área e, consequentemente sem alfabetização, não conhecem a importância que um médico adquire numa sociedade. É uma reação em cadeia que caracteriza todo o povoado de Santa Fé.

Posto isso, as eleições começam a se tornar o “falatório”. E para se eleger um candidato é indispensável o voto. Mais uma vez o processo de alfabetização torna-se a base para mais uma solução. Caso curioso é que até os mais instruídos também parecem alienados com a política “coronelizada” da região. O personagem Pedro Falcão, ao responder a pergunta do amigo Ferdinando sobre os votos dos trabalhadores de sua terra, diz: “Aqui não tem essa de voto de cabresto não, amigo, eles votam em quem a gente mandar”.

E, por fim, ou pelo menos até o momento de exibição, uma questão muito interessante e extremamente atual é em relação à valorização da profissão de Professor. Meu Pedacinho de Chão aborda em no máximo uma semana o descompromisso com o salário da professora, que passa a ser uma questão de questionamentos entre todos os personagens da novela. Juliana dá aulas a crianças, sendo custeada pela prefeitura, e se disponibilizava a lecionar aos adultos por conta própria. Porém, ainda nessas condições, o descaso e desrespeito com a sua posição era, de certa forma, escancarada.

O que se pode analisar é que, embora seja uma ficção, Meu Pedacinho de Chão retrata temáticas atemporais que foram auges tanto no século passado como algumas também se apresentam no século presente. Se pararmos para nos questionar, esse tipo de novela é muito mais que uma diversão ou descanso. É um debate fácil de ser estruturado, mas um problema difícil de ser resolvido. As críticas e discussões foram jogadas para nós, agora nos cabe absorvê-las, debatê-las e questioná-las.

Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo.

Conta histórias da vida, do que escuta, do que observa, do que lê e do que vive. É uma amante da vida real, mas não larga sua própria ficção.

Escreve também no seu Blog Pessoal, o Escrever Para Não Implodir.

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