deus e o diabo na terra do sol - glauber rocha

Em 1963, quando o diretor Glauber Rocha chegou a Monte Santo, no sertão baiano (363 km de Salvador), a pequena cidade de pouco mais de mil habitantes ainda lembrava do grupo de cangaceiros liderados por Virgulino Ferreira da Silva o “Lampião”, e sua esposa, Maria Lopes, a “Maria Bonita”.

Os mais velhos se recordavam mesmo da Guerra dos Canudos (1896-1897), cujo conflito também passou por ali. Hoje, 55 anos depois da filmagem do clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), a cidade segue recebendo turistas que cruzam o estado para ver o que sobrou das imagens do filme – mas a maioria dos visitantes é de romeiros cristãos.

O cenário da obra-prima de Glauber segue lá: a escadaria de pedra construída no século 18 sobre a Serra de Santa Cruz, que dá acesso a uma pequena capela no alto do morro e que, no filme, é o ambiente das cenas em que os fiéis de São Sebastião (Lídio Silva) são assassinados por Antônio das Mortes (Maurício do Valle) e que o protagonista Manuel (Geraldo Del Rey) sobe os degraus ao lado do santo com uma pedra na cabeça, foi mantida pela prefeitura em seu estado original.

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Segundo Nelson Motta, produtor musical e autor de A Primavera do Dragão (Objetiva, 2011), biografia do diretor, Geraldo decidiu fazer a cena com uma pedra de verdade e, por conta do peso, sofreu um ferimento na cabeça que obrigou Glauber a levar seu protagonista para um hospital de Salvador e parar as filmagens por três dias.

“Acho que um dos motivos para a falta de turistas é que a viagem de Salvador até Monte Salto é um incessante sacolejo por estradas empoeiradas e precárias”, diz o advogado Jorge Sotomayor, que esteve na cidade no começo deste ano. “Quando cheguei lá percebi que ainda é uma vila perdida no meio do sertão que conta apenas com um séquito de romeiros locais em busca da capela no alto do morro. É um lugar meio místico”, completou.

A caminhada total da escadaria da Capela de Santa Cruz possui três quilômetros de extensão e, após todos os degraus vencidos, os visitantes chegam a uma altitude de 550 metros. O ritual geralmente é feito por cristãos para agradecer por milagres alcançados. “Dizem na cidade que alguns enfrentam a ‘via sacra’ descalços ou se imolando para ampliar o sofrimento. Eu subi apenas com minha mochila de 15 quilos nas costas”, brinca Sotomayor.

O soteropolitano André Gama, que esteve no município no ano passado, conta que, desde a produção do filme, outras capelas menores foram construídas ao longo da escadaria para aqueles romeiros que não conseguem chegar até o alto do morro. Quem consegue chegar, encontra apenas um guarda pago pela prefeitura para tomar conta da capela. “Os moradores não se importam muito com a igreja durante a maior parte do ano. Só na Festa de Todos os Santos que todo mundo quer subir”, explica.

A capela foi construída em 1775 pelo frei capuchinho italiano Apolônio de Todd, que por ali passava em uma missão ordenada por um fazendeiro local. Segundo historiadores, o religioso se encantou com o morro por sua semelhança com o Monte do Calvário, em Jerusalém, no hoje território de Israel, e levantou a igreja no local em que passou a chamar de “Monte Santo”. Naquela época, já era ponto de romarias entre beatos e líderes católicos baianos.

Segundo a prefeitura, as principais datas turísticas de Monte Santo são a Semana Santa, entre março e abril, e a tradicional Festa de Todos os Santos, comemorada no dia 1 de novembro. Os turistas de fora da Bahia compram passagens aéreas para Salvador e, da capital, viajam de ônibus ou carro para o local. Em 2017, a administração municipal contratou a dupla Zezé di Camargo & Luciano para um show na praça central que reuniu cerca de 100 mil pessoas. O ponto alto da data, no entanto, é a subida pelas escadarias até a capela — no ano passado, o famoso padre Antônio Maria liderou o séquito de fiéis.

Para 2018, a prefeitura abriu uma enquete pública para decidir qual será a grande atração musical. Segundo as autoridades, a dupla Jorge e Mateus é a preferida para fechar as comemorações.

A praça principal de Monte Santo, em frente à igreja da cidade, onde várias cenas do filme foram gravadas, como a conversa entre Antônio das Mortes e o cego Júlio, também está lá: o edifício histórico foi pintado, mas não tem a mesma atratividade da capela no alto do morro. Na Festa de Todos os Santos, algumas missas são realizadas ali perante multidões de romeiros de várias cidades do estado e do Nordeste.

Há uma década, a prefeitura também inaugurou o Museu do Sertão em um casarão do final do século 19 com itens sobre a Guerra dos Canudos, os conflitos dos cangaceiros e o filme de Glauber Rocha.

Lá, os visitantes ainda podem ver o meteorito de Bendegó, um objeto encontrado na cidade no século 18 e que dizem ter vindo do espaço, uma edição rara do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, e diversos objetos deixados por romeiros durante as caminhadas pelas capelas. “Geralmente são itens relacionados com partes do corpo que possuíam alguma doença”, relatou o professor Eduardo Tolentino em um programa da TV local.

Segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), 8,1 milhões de viagens nacionais são realizadas por causa da fé — o que representa 3,6% de todas as movimentações pelo Brasil. Na Bahia, destino comum do público religioso, o governo realizou diversos projetos para aumentar o volume de turistas, mas Monte Santo não foi beneficiada. Cidades como Salvador, Santo Amaro e Bom Jesus da Lapa figuram hoje entre as principais receptoras de fiéis no estado.

O filme

À época com 25 anos, Glauber Rocha passou um mês em Monte Santo filmando Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1963.

O filme foi lançado apenas no ano seguinte, no Rio de Janeiro, e foi escolhido imediatamente para representar o Brasil no festival de Cannes, na França. Naquela mesma época, a obra ainda foi indicada ao Palma de Ouro.

O diretor, porém, ganharia o prêmio francês apenas em 1969, com O dragão da maldade contra o santo guerreiro, espécie de continuação do primeiro filme.

filme de glauber rocha

Além de várias outras indicações e prêmios pelo mundo, a obra ainda traz a trilha sonora de Sérgio Ricardo, que ficaria nacionalmente conhecido apenas em 1967 ao quebrar um violão durante o Festival da TV Record, em São Paulo, em 1967.

Compositor sobre as letras do próprio Glauber, a música ajuda a relatar a história de Manuel e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães) em busca de uma vida melhor pelo sertão baiano. Depois da morte de São Sebastião, assassinado pela própria Rosa, eles encontram refúgio no capitão Corisco (Othon Bastos), sobrevivente de um conflito que vitimara Lampião e seus irmãos. Corisco seguia em guerra contra os coronéis locais que haviam contratado Antônio das Mortes para matá-lo.

“Após Deus e o Diabo na Terra do Sol, eu passei quatro ano sem filmar outro papel. Foi uma experiência tão forte, tão importante, que eu achava que não podia destruir essa imagem”, contou Othon à revista Revestrés. “Era um filme com o mínimo de dinheiro e o máximo de coragem, na aventura e certeza que se estaria fazendo um bom filme”, completou.

Repleto de lendas e histórias, a produção do filme foi feita em pouco tempo e contou com a ajuda da população local, que atuou como figurante das cenas. No entanto, não foi fácil lidar com os moradores da cidade, segundo Nelson Motta. Em A Primavera do Dragão, ele conta que, após o take em que Lídio Silva, como São Sebastião, anuncia que o “sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, os atores improvisados se revoltaram com ele.

“Enfurecidos com o profeta agourento, os fiéis cercaram Lídio como se fosse o enviado do tinhoso, o mensageiro da desgraça. Um menino chutou sua perna, outro lhe deu um empurrão, uma velha beata socava o seu peito gritando ‘sai desse corpo, satanás’, a cena havia se transformado em uma alegoria glauberiana involuntária. (…) Surpreso e apavorado, com medo de ser linchado, Lídio disparou para a casa paroquial, perseguido pela multidão, enquanto Glauber estourava numa gargalhada e gritava ‘corta'”, diz um trecho do livro.

Em outra parte, Motta conta que os figurantes cansaram-se de subir e descer a escadaria até a capela e pediram mais recompensas em troca. O produtor Luiz Augusto Mendes, o “Gugu”, precisou desviar latas de leite em pó e rifar uma máquina de costura para convencer os moradores a ficarem à disposição de Glauber. “Além do salário mensal, quem subisse o morro ganharia duas latas de leite em pó. Ao longo do dia, a notícia se espalhou e veio gente até dos vilarejos vizinhos para participar da filmagem”, afirma Nelson Motta na sua obra.