Os militares tomaram o poder político do Brasil em 1964 e permaneceram até 1985. Em 1975, apenas a Argentina, de todos os países abaixo do Equador, não era governada por um general.

Mas em março de 1976 a exceção argentina teve fim. De 1976 a 1983, a Argentina passou a ser comandada pelos generais que deram início à “guerra suja”, que consistia no aniquilamento de guerrilhas, grupos sindicalistas, esquerda revolucionária e estudantil.

Na Argentina, houve um esforço pelo não esquecimento deste período, especialmente com a transição político-democrática. Antes disso, tanto a Argentina quanto o Brasil, durante seus regimes autoritários, mantiveram grupos de resistência e apoio àqueles que lutavam contra a ditadura, como as Avós da Praça de Maio (Argentina), o Movimento Feminino pela Anistia e do Comitê Brasileiro pela Anistia (ambos no Brasil).

Entre tantas semelhanças, tanto a repressão argentina quanto a brasileira contaram com o protagonismo feminino.

Em apenas 33 anos de redemocratização e com maior acesso à informação e o domínio de redes sociais, você com certeza tem escutado ou lido mais sobre ditadura do que nas aulas de história da escola.

O pensador Pierre Nora diz que a “história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais”. Esse mesmo pensador afirma que a memória precisa de arquivos e de rituais. Porque a memória é simbólica, material e funcional, com um papel individual e coletivo.

Mas e quando a memória não é abordada pelo medo de trazer à tona todo sofrimento vivido durante anos?

A ditadura deixou um rastro de mortos, desaparecidos e de silenciamentos que passam a ser enfrentados em documentários, que tornaram-se ferramentas, um aporte e um lugar de memória para que os depoimentos de quem viveu o período não se percam com o tempo e para que a história seja reconstruída, apesar da dor.

É por isso que escolhemos os três documentários abaixo para compreender esse período histórico além do olhar dos historiadores ou dos especialistas de redes sociais. A história, contada sob o ponto de vista feminino, ajuda a compreender nosso passado, tão recente e obscuro.

Damas da Liberdade  (2012)

“Você sabe o que é Anistia? Você sabe o que é uma Assembleia Constituinte?”, pergunta a primeira “dama” Alayde Pereira Nunes, do Movimento Feminino pela Anistia-RJ.

Quantos saberiam responder a pergunta de Alayde? O questionamento dela mostra a lacuna política das gerações que não viveram a ditadura e que ignoram o debate político.

Lançado em 2012 e com 27 minutos de duração, o documentário Damas da Liberdade foi dirigido por Célia Gurgel e Joe Pimentel. A força dos depoimentos de mulheres que viveram o período é a marca do documentário, que conta a história da luta pela anistia no Brasil nos anos de 1970, reacendendo o debate sobre um  período de repressão e medo que o país jamais deverá esquecer.

Assim, o documentário se desenvolve contando o  começo da organização estudantil e de um grupo de  mães que surgiu, segundo Nildes Alencar, “para atender  e permanecer na retaguarda dos filhos engajados contra a ditadura”.

Repare bem (2013)

Os anos de chumbo na vida de três mulheres é a abordagem central do documentário de Maria de Medeiros, que foi lançado em 2013.

A diretora portuguesa traz a história de Denise, Encarnação e Eduarda para a frente das câmeras e, assim, a luta, os exílios e as perdas de três mulheres da mesma família que não se perderam com o passar do tempo.

Filha de José Maria Crispim, que foi deputado em São Paulo na época da Constituinte de 46, e de Encarnação, Denise Crispim conta a sua história e de como ela se funde com a história política do país.

Os depoimentos de Denise Crispim e de sua filha, Eduarda Ditta Crispim Leite, foram registrados em Roma e em Joure, no norte da Holanda, onde ela e a filha reconstruíram suas vidas. Mesmo longe do Brasil, a memória apreendida e transformada em documento conduz o espectador a um mergulho na história nacional desde os anos 70.

Denise conta no documentário que já nasceu clandestina, em 1949, quando seus pais foram perseguidos. Ela foi companheira do guerrilheiro Eduardo Leite e fugiu para o Chile para tentar escapar dos horrores do mesmo regime que matou o pai de sua filha. Lá, as três mulheres viveram a repressão de Pinochet.

Repare Bem é um documentário que mostra as marcas, as memórias e como a identidade dessas três mulheres foi transformada para sempre pela ditadura.

Em busca de Iara (2014)

Iara Iavelberg foi o grande amor de Carlos Lamarca, que foi militar e um dos líderes da luta armada contra a ditadura.

Mas quem é a mulher por trás do romance?

A identidade de Iara é reconstruída neste documentário por meio de depoimentos de familiares e amigos. Iara Iavelberg foi psicóloga, docente e atuante no movimento estudantil de 1960. Durante a ditadura militar, abandonou a família para investir na luta armada.

O documentário lançado em 2014 e dirigido por Flávio Frederico mostra como a ditadura militar usava de toda forma de humilhação contra aqueles que se opunham ao regime: Iara, de família tradicional judia, foi encurralada pela polícia e, segundo a versão dos militares, cometeu suicídio. Entretanto, essa versão nunca foi aceita pela família, que só pôde enterrar o corpo de Iara um mês após a morte.

Na tradição judaica, os suicidas são enterrados em uma parte específica do cemitério e com os pés voltados para a lápide, o que transformou o luto da família de Iara em uma memória ainda mais dolorosa, cercada de constrangimento e injustiça.