São quase 5 horas da manhã. Meu brother está dormindo na barraca, parece até que morreu, mas fui conferir agora pouco, ele respira. Minha amiga está puta por que esse meliante não acorda pra gente poder desmontar as coisas e esperar o ônibus que vai nos levar de volta pra São Paulo.

Está um frio respeitável, de madrugada nesse último dia fez 7 graus. Coloquei meu tênis agora e parecia até que era uma geleira. Enquanto bato queixo estou ouvindo alguma banda improvisando perto do palco Lunar. Pulso no ritmo do baixo…

Esse foi um resumo dos últimos 5 minutos do Psicodália 2018, mas vamos por partes, do início, produção. Deixa só eu tirar o pé da lama.

Psicodália 2018

Gosto de registrar as coisas na hora. Escrevi isso antes de entrar no ônibus que iria me levar de volta a São Paulo, depois de mais um ano cobrindo o Psicodália pelo La Parola, e a edição de 2018 não poderia ter sido melhor, principalmente para as bandas independentes.

No primeiro dia (sexta-feira) confesso que o cansaço de 12 horas de viagem e uma chuva insistente que colocava em risco nosso equipamento foram responsáveis por fazer nossa comitiva psicodélica dormir profundamente, logo depois que o Mundo Livre S/A tocou no festival.

Depois de contar com o Nação na edição de 2016 do Psicodália, nada mais justo do que selar o manifesto do mangue beat com outro importantíssimo pilar do movimento que, além do Chico Science, teve Fred 04 no front do groove.

Foi um veneno. Teve peso, mas teve também feeling e o som pulsava com grande liberdade, em ondas de sísmica percussão. Da lama ao caos.

Psicodália 2018

No dia seguinte o negócio já foi diferente. Acordei bem cedo e fui dar aquele confere na temperatura do lago nas dependências da Fazenda Evaristo. Fiquei tanto tempo lá que pelas 11 horas saí do meu transe e já entrei em outro. O nome dele? Raissa Fayet.

Essa é uma das maiores belezas do Psicodália, o acaso. Assistir ao show da curitibana no Palco do lago foi uma grata surpresa, aliás, esse palco de maneira geral, rendeu alguns dos melhores shows do festival.

A lírica de suas canções é serena. Parece literatura de cordel misturada com o fino da MPB, uns toques de Reggae (em alguns momentos) e o bom e velho groove. A naturalidade com que a moça tocava violão e cantava era de espantar. O combo que a acompanhava também mostrava grande versatilidade e, pouco a pouco, sua voz chamava as pessoas como uma espécie de flautista de Hamelin. Só que nesse caso, no lugar de ratos, o que se viu foi um mar de hippies.

O show terminou lotado. A apresentação ainda teve espaço para diversas intervenções advindas da plateia e, em todos os cenários, Raissa mostrou um talento especial, muito próprio, natural, doce e que talvez tenha sido o espetáculo perfeito para abrir a programação de um palco bastante especial… O clima intimista das faixas presentes em seu disco “Rá” (2017), fizeram desse show, uma ótima opção para se começar o dia.

Nossa equipe viu o show embasbacada. Nenhum de nós a conhecia, sejamos francos, mas o baque foi tanto que eu olhei para o fotógrafo e disse: por que nós não lembramos de pegar a máquina?!

Depois de conseguir processar tudo que tinha rolado, às 13h horas era a vez do Beach Combers se apresentar no mesmo palco. Com uma Surf Music toda trampada na modernidade, o trio carioca encabeçado pela Giannini do Bernar Goma fez um show no mínimo fulminante.

Psicodália 2018

Com o repertório todo baseado no disco “Beach Attack” (lançado em janeiro de 2018), o trio que ainda conta com o animalesco Lucas Leão na batera e o swing descolado do bass man, Paulo Emmery, só não fez chover porque já estava chovendo quando o show começou.

O mais louco era que conforme a chuva apertava, mais gente chegava, e enquanto os caras improvisavam mostrando um requinte sinuoso, muito bem explorado, principalmente na questão dos timbres… Ah meu caro, aí deu pra ver que a Surf Music vai muito além de um best of do Dick Dale.

Rock ‘N’ Roll sem cuspe e sem massagem, tudo ali, no dedo mesmo, na raça e na pancadaria. Sem mimimi, direto e reto, tal qual um show na rua que esses caras estão carecas de fazer.

Foi bem foda ver uma banda que rala tanto na cena carioca, bem ali, no coração de um dos maiores festivais do Brasil e arrancando centenas de palmas da plateia. Depois do show eu entendi o nome do primeiro disco deles, por que de fato, ninguém segura os Beach Combers.

Psicodália 2018

Ainda no sábado rolou muito som. Primeiro o Boogarins tocou no palco Lunar (às 20h30) e só pela quantidade de gente que encostou deu pra entender o quanto esses caras estão consolidados na cena. Com uma receita bastante original em termos de psicodelia, composição e dinâmica de show, deu pra sacar como os guris estão evoluindo rápido, fora que o trampo do Ynaiã Benthroldo na batera dá outra pulsação no som dos caras.

Na bota do show do Boogarins foi a vez do Lô Borges. No mesmo palco Lunar o mestre Borges emulou os clássicos de uma geração. Foi numa chuva considerável que um dos maiores compositores brasileiros fez um de seus shows mais importantes em seu próprio passado recente.

Antes de sair da barraca eu tive até que tirar uma foto que, apesar de parecer cosplay da capa de seu clássico “Disco do Tênis” (“Lô Borges – 1972), foi só um relato da realidade enfrentada no festival.

Psicodália 2018

Logo depois, também no mesmo palco, quem subiu pra malhar o groove foi uma das maiores bandas do Brasil atualmente, fácil fácil. Confesso que em 2016, depois do show do Nação Zumbi, pensei comigo mesmo: “imagina se o Bixiga 70 tocar aqui?!”

Que festa. Quanto entrosamento, técnica, dinâmica e que aula em termos de som. Numa banda instrumental tão grande e com instrumentos de natureza e timbres tão diferentes entre si, sacar um show de duas horas com uma clareza sonora a ponto do ouvinte conseguir diferenciar todos os instrumentos é louvável.

Já assisti ao Bixiga 70 umas 15 vezes em sampa. Na rua, no coberto, no seco ou no molhado, pode plugar as caixas que os caras estão voando. Mas o show no Dália foi o melhor que eu já vi… Dançar pulsando no groove, ainda mais num lugar tão utópico e livre quanto o Dália foi o que todos os presentes precisavam pra tirar toda e qualquer zica que pairava no ar.

Como num levante espiritual, o Jazz universal do grupo mostrou, mais uma vez, como a  música ganha em repertório a partir do momento em que os ritmos são apenas somados e nunca separados. Experimentar é preciso, e se o negócio acontecer a serviço da música, o resultado é justamente esse: um dos maiores espetáculos do cenário musical brasileiro.

Tão leve quanto um elefante numa loja de cristais, o Bixiga 70 não deixou pedra sobre pedra.

No domingo, o palco do lago recebeu mais um grande show. Uma das maiores performances do festival, o show da Aminoácido, grupo de Londrina, foi no mínimo excelente. Com uma banda completíssima, afinal de contas o show no Dália, além da estreia dos jovens no festival, era o show de lançamento do segundo disco de estúdio da banda.

“Sem Açúcar”, lançado em fevereiro de 2018, tem tudo pra terminar o ano nas listas de melhores trabalhos nacionais, mas o show dos caras foi ainda mais assustador do que o disco.

Psicodália 2018

Depois de muito matutar quanto ao gênero do som dos caras, cheguei a conclusão de que se for pra categorizar o som, a única alcunha possível é “groove”. Nem sei se isso se enquadra num estilo, mas é isso que esses caras tocam: groove.

Com toneladas de balanço, os moleques colocaram todo mundo pra dançar. Com um approach meio Frank Zappa ouvindo George Clinton, a banda fez miséria. O trampo de guitarras merece muito destaque, a Gretsch do Thiago Franzim (guitarra/voz) junto com a dobra de Cristiano Ramos (guitarra/voz) deram um workshop gratuito sobre timbres de guitarra.

Psicodália 2018

Vale ressaltar que o primeiro registro da banda, “Meticuloso, de  2017, foi quase todo instrumental. Já o segundo disco não, “Sem Açúcar” conta com faixas cantadas e o trabalho de Cristiano, tanto no disco, quanto ao vivo, merece bastante destaque, o cidadão assumiu o papel de front man e ainda o fez rachando o assoalho na guitarra.

Outro ponto que vale a pena ressaltar é a cozinha. Com os slaps de Lugue Henriques num baixo cheio de acidez e Douglas Labigalini na batera, a banda conta com uma base sonora flutuante que é a cama perfeita para demenciais improvisos. Teve de tudo, até dupla de backing vocals, embates percussivos e muita versatilidade, tanto em termos de variação de peso quanto sádicas brincadeiras devido aos tempos quebradíssimos das composições do grupo.

Psicodália 2018

Depois do show do Aminoácido confesso que tiramos a tarde pra absorver o que foi ouvido. Como estava chovendo com relativa frequência, o rolê acabava sendo mais cansativo em termos de locomoção, então o consenso foi de que até a hora do show do Zé Ramalho nós ficaríamos moscando, apenas admirando os balanços do palco do lago indo de um lado para o outro.

O Zé Ramalho talvez seja um dos interpretes mais icônicos da história da música brasileira. O jeito que ele canta… Acho que nem que ele inventasse uma mentira, aquela calhorda, da pior espécie mesmo, você diria que trata-se de um embuste, tamanha a força de suas palavras.

Parece que suas letras saem a ferro e fogo, como num decreto. Você escuta e observa sua minimalista movimentação com adoração, e o show que o cidadão fez, apesar de ter acontecido debaixo de uma grande chuva, foi a inauguração dos dias de barro no Dália.

Psicodália 2018 - Zé Ramalho
Foto: Nicolas Pedrozo Salazar

Madrugada adentro, agora já na casa da 1 da manhã, foi a vez dos sulistas reincidentes no Psicodália tocarem o terror. O Pata de Elefante, uma das maiores bandas instrumentais do Brasil, fez um show que me faz perguntar até hoje como é que eles terminaram.

O que o senhor Gabriel Guedes faz nas guitarras é ridículo. O trio moeu os instrumentos. Guedes deu aula no slide, mostrou uma pegada assombrosa no baixo e solou com a tranquilidade de um velho que vai buscar água na cozinha de madrugada.

Com slide, fazendo pontes, atravessando o tempo e as frases das músicas, a faísca do Blues do cidadão desafiava o trabalho de guitarras e bass do Daniel Mossmann, mas engana-se quem pensa que ele não acompanhou.

O cidadão ainda pegou uma Telecaster uma hora e a bichinha uivou com classe. Fechando o pacote, na batera de Reynaldo Migliavacca… Bom, em alguns momentos duvidei que certas viradas e acompanhamentos era anatomicamente possíveis. O show dos caras foi um dos melhores do festival.

No dia seguinte o clima amanheceu diferente. Levemente esotérico, os ventos do sul pareciam valentes. Algo estava diferente. Vi muita gente de gravata e só as 22h entendi o motivo: era dia de Jorge Ben no palco Lunar.

Outro show idealizado por mim, assistir o Jorge Ben com sua bandaça no Psicodália foi algo inspirador. Mais lindo que ouvir o flamenguista relembrar seu parceiro síndico, só saber que o show estava sendo gravado.

E quando ele tocou “O Homem da Gravata Florida”?! O sangue da Tábua de Esmeralda tem poder meus caros. Nunca vi tantos corpos balançando.

Psicodália 2018 - Jorge Ben Jor
Foto: Nicolas Pedrozo Salazar

No penúltimo dia de festival a surpresa da parte da manhã/tarde coube mais uma vez ao palco do lago. Dessa vez com André Prando & banda, foi a vez do compositor capixaba mostrar seu requinte psicodélico com aura de Grateful Dead.

Performático, bastante solto no palco e contando com um trio de grandes músicos, além dele mesmo, que se alternava nas guitarras (seu principal ganha pão além do vocal), o show do grupo foi a prova de como a água do Espírito Santo tem algo diferente… Compositor do mesmo nível de caras como Juliano Gauche, André destilou sua lírica desleixada com grande propriedade enquanto sua banda mergulhava em demenciais improvisos.

Com um show centrado nas composições do ótimo “Estranho Sutil” (2015) o grupo teve uma a oportunidade de expor seu som num novo eixo e a plateia gostou do que saia dos falantes.

Com um alto padrão instrumental e com dinâmicas que beneficiavam uma cristalina audição através de cada um dos canais, ficou claro como os caras estão entrosados. Esse ano inclusive eles voltam aos estúdios pra gravar mais um bolachudo, vale a pena ficar ligado.

Psicodália 2018

Depois de algumas cachaças, bauretes, uma soneca depois do show e aquela larica esperta, parti pra sacar mais uma banda da cena de Londrina, inclusive vale a pena ficar ligado nesse trechinho do nosso mapa, tem bastante coisa pipocando por lá.

Dessa vez a grooveria eletroacústica ficou no colo do Abacate Contemporâneo. Grupo dos mais interessantes que figurou no line up do festival, a visão que o combo emula para resgatar a cultura maldita da MPB é riquíssima e surpreende pela originalidade contagiante.

Com arranjos bastante ecléticos dentro de um amplo espectro de cozinhas, o grupo brinca com referências complexas de maneira leve, algo notável para uma banda que vai da poesia ao Rock como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

Com temas do interessantíssimo EP homônimo que a banda lançou em 2017, esse show surpreendeu muita gente. Foi interessante ver como a galera foi chegando. A atração que o som do quinteto causou rendeu um ótimo público no Palco dos Guerreiros e essa brasilidade tem tudo pra voltar em edições futuras. Bom humor, criatividade e mesclas de gênero feitas com equilíbrio. Música cerebral. Coisa finíssima.

E pra fechar, é com pesar que chegamos no último dia de festival, com lama até a canela. O show que vem a seguir inclusive parece ter sido uma piada de mal gosto com o fato de que a nossa equipe precisava voltar pra São Paulo no dia seguinte.

Foi com as paulistas da Ema Stoned que eu comecei a ficar triste em saber que só teria Palco do Lago de novo em 2019. O trio feminino de música instrumental está ganhando fãs na terra da garoa. Com um formato simples, com baixo, batera e guitarra, a receita do som dessas senhoras é bastante peculiar.

Com um approach espacial para abordar o Rock ‘N’ Roll numa veia experimental, a onda que bate depois que elas começam a tocar é forte. Com interlúdios interessantes na guitarra (Alessandra Duarte) frente às linhas estruturas do baixo de Elke Lemers, a cozinha climática do trio criava atmosferas hipnóticas.

Apesar dos problemas técnicos enfrentados antes do show, tudo ocorreu muito bem. Quem dera a minha barraca tivesse sido guardada com a mesma tranquilidade com a qual as senhoritas tocavam.

Psicodália 2018

Depois do show a depressão tomou conta das mentes criativas. A equipe de paroladores já falava do festival no passado, citava algumas passagens que foram omitidas nesse relato e dava risada enquanto pisava na lama e rebatia pedaços de terra com a havaiana em cima de nós mesmos.

Mais uma vez foram dias de ótima música, convivência pacífica e muita liberdade. Ano após ano o Psicodália se firma como um dos festivais mais relevantes do Brasil. Seu caráter acolhedor frente a novas cenas que se formam – e logo se firmam, é o que estimula a cultura independente e une eixos mal explorados por produtoras que priorizam a região sudeste.

Psicodália 2018

É muito massa andar pelas dependências da fazenda e ver incontáveis bandas improvisando, trocando instrumentos e mandando bala durante os 5 dias do festival nos intervalos de todas as atrações.

Ver que um festival desse porte possui a consciência da importância de abrir essas simples oportunidades é justamente o que faz do Psicodália uma clara extensão da música de maneira geral: quanto mais orgânica e verdadeira, melhor.

Vida longa ao reino de Wagner. Ô lugarzinho do caralho!

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.